O "Livro do Desassossego" de Bernardo Soares e "The Western Canon" de Harold Bloom:

uma aproximação

 

MARTIM DE GOUVEIA E SOUSA *

 

O cânone é a "lei", anunciaram-no os gregos desde há muito. E logo, ultrapassada a notação do genuíno e do inspirado na Bíblia , esse luminoso anúncio se reinscreveu na tradição literária e permitiu, em exemplo, demandas tão virtuosas, na busca da expurgação e dos exempla, como as do cânone da lírica camoniana ou do cânone camoniano, do cânone shakespeareano ou do cânone pessoano. Mas sempre se soube que cada leitor emocionado (e muitos dos melhores leitores são eles próprios criadores) vai construindo a sua lista de grandes obras e as vai sacralizando. Para nós, a lei não vem de fora, existe dentro...

Ora, Bernardo Soares, nesse importante e crucial marco da literatura portuguesa que é o Livro do Desassossego**, vai expendendo actos judicativos e valorativos sobre vários autores. Sabendo-se como se sabe que é Bernardo Soares, no meio de todos os heterónimos e sub-heterónimos pessoanos, aquele que mais se aproxima do próprio Pessoa, de imediato se conclui que essas apreciações contribuem em muito para o estabelecimento do seu gosto literário. Será nesse rasto que partiremos no parágrafo seguinte, sabendo de antemão que o gosto literário de um autor consagrado não é forçosamente canónico ou aceitável, e para tal basta que nós (cada um de nós) discordemos. Basta lembrarmo-nos do dissentimento que sempre provocam opiniões sobre os melhores romances ou as melhores obras .

Assim: sobre Fialho de Almeida e Chateaubriand, diz Soares que eles o fazem "raivar tremulamente, quieto de um prazer inatingível" (p. 35), aparecendo o último dos dois recorrentemente neste Livro , numa das quais como "uma alma grande que diminui." (p. 275) ; de Vieira, que "tal página" o "faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida" (ibid.) e que é ele o autor que o enleva e o eleva ( p. 36); do P.e Figueiredo, que a sua linguagem o embala (p. 37); do P.e Freire, que aí recolhe a disciplina; a páginas 43, descreve um ideal: "A sensibilidade de Mallarmé dentro do estilo de Vieira; sonhar como Verlaine no corpo de Horácio; ser Homero ao luar."; não acredita na paisagem como estado de alma do suiço Amiel (pp. 45-46); critica Oscar Wilde por ter demasiada consideração pelo outro e, dessa forma, " pela boca morrem o peixe e Oscar Wilde" (p. 55), logo o louvando cerca de duzentas páginas à frente pela tirada "A maioria da gente é outra gente." (p. 250) ; goza plenamente por se sentir coevo de Cesário Verde: "... tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele." (p. 61), embora lhe critique o orgulho inútil da apresentação ao médico como o poeta Cesário Verde e não como o Sr. Verde empregado no comércio, uma vez que "o que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta." ( p. 70), para logo à frente o erigir como fundante matriz poética (p. 95) e anunciador da sua alegria: "...ó meu Cesário, apareces-me e eu sou enfim feliz porque regressei, pela recordação, à única verdade, que é a literatura." ( p. 106) ; alude a Fialho de Almeida e a temáticas sórdidas, num trecho notável sobre o diálogo umbilical, onde cada um procura namorar-se e engrandecer-se (pp. 63-64); num registo de fina ironia sobre os que governam o mundo e os que são o mundo, Bernardo Soares inclui-se neste último, o dos amorfos, e consigo arrasta "o dramaturgo atabalhoado William Shakespeare, o mestre-escola John Milton, o vadio Dante Alighieri, o moço de fretes (...), o barbeiro (...), o criado" (pp. 84-85; p. 279), todos "criadores da consciência do mundo" (p. 279); a leitura do seu "irmão" Alberto Caeiro, no seu despojamento, na simplicidade, dá-lhe a liberdade e o frémito e a vibração (p. 99); critica o pessimismo trágico e interessado de Vigny (p. 131) e apoda-o de "génio que teve de fugir" (p. 275); o reconhecimento de que "ter já lido os Pickwick Papers ", de Charles Dickens, constitui uma das grandes tragédias da sua vida e de que, por isso, "não posso tornar a relê-lo" (p. 143), uma vez que, como dirá lá bem à frente, "tenho chorado lágrimas verdadeiras sobre esse romance, por não ter vivido naquele tempo, com aquela gente, gente real" (p. 298); alude à personagem Peter Schlemil de Adalbert von Chamisso, que entregara a sombra ao Diabo, para dizer que ele havia entregado a sua substância; ao referir-se à diferença entre o pensado, o projectado, e o real, em testemunho escrito, Bernardo Soares, em frases sucessivas, convoca Homero, Virgílio, Milton, Swift e Verlaine (pp. 228-229); pouco depois, fala-nos das suas semelhanças e dissemelhanças com Poe, Chateaubriand (de novo) e Rousseau (p. 236); mais à frente, aparecem Carlyle e Condillac (pp. 240-242); ao defender a sua posição sobre a tristeza da vida, aí aparece, como voz autoritária, o nome de Heine (p. 247); logo de seguida, falando sobre o pessimismo, surgem Leopardi, Antero, Chateaubriand (uma vez mais) e Vigny ( de novo) (p. 250); de Hugo diz Bernardo Soares ser ele "uma alma pequena que se distende com o vento do tempo."(p. 275), de Michelet estarmos perante "uma mulher que teve de ser homem de génio"(ibid.) e de Rousseau ter ele uma inteligência de Criador e uma sensibilidade de escravo (ibid.); sobre o sábio e poeta persa Omar Khayyam fala o Autor do Livro do Desassossego com agrado e até adesão, ao avançar a lição de que o seu tédio "é o de quem pensou claramente e viu que tudo era obscuro" (p. 276), como verdadeiro "Mestre do desconsolo e da desilusão" (p. 277); relativamente a Shakespeare e a tiradas mais judicativas, avança Bernardo Soares dizendo: "Se tivesse escrito O Rei Lear , levaria com remorsos toda a minha vida de depois. Porque esta obra é tão grande, que enormes avultam os seus defeitos, os seus monstruosos defeitos, as coisas até mínimas que estão entre certas cenas e a perfeição possível delas. Não é o sol com manchas; é uma estátua grega partida." (p. 299) Aliás, "nenhum drama de Shakespeare satisfaz como uma lírica de Heine." (p. 300).

A tese de Harold Bloom erege como centro do cânone literário o vulto de William Shakespeare, o que de certa forma colide com a visão pessoana por sob o filtro de Bernardo Soares. De facto, The Western Canon (The books and school of the ages) (1994), de Harold Bloom***, defende a ideia segundo a qual o autor de Macbeth é o elemento fundamental da tradição literária , agrupando em seu torno o escol universal de autores, a saber: Dante, Chaucer, Cervantes, Montaigne e Molière, Milton, Samuel Johnson, Goethe, Wordsworth e Jane Austen, Whitman, Emily Dickinson, Dickens e George Eliot, Tolstoi, Ibsen, Freud, Proust, Joyce, Woolf, Kafka, Borges, Neruda e Pessoa, e Beckett.

Esta canonização, ancorada toda ela no gosto literário, sugere desde logo que a posição bloomiana tem tanto de corajoso como de confutável - porquê Shakespeare e não Ésquilo ou Homero ou Horácio ou Petrarca ou Dante ou Camões ou Baudelaire ou Broch ou o próprio Pessoa? A par disso, arrasta consigo a curiosidade da refutação poder partir de um texto importante de um autor canónico da sua Chaotic Age**** - não defende Bernardo Soares não interessar tanto Shakespeare como uma lírica de Heine?

O Professor Bloom, ao defender a centralidade de Shakespeare relativamente ao mundo ocidental, afirma ainda que depois do autor de Romeu e Julieta poucas figuras literárias se libertaram da sua anxiety of influence . De que modo se poderá provar essa presença em Fernando Pessoa? Ou será Pessoa um dos poucos refractários a essa influência?

No capítulo intitulado "Shakespeare, Center of the Canon", Bloom justifica essa superioridade com a tirada "Shakespeare and Dante are the center of the Canon because they excel all other Western writers in cognitive acuity, linguistic energy, and power of invention."(p. 46) Mas a magnificência de Shakespeare, que assim sobrepuja Dante, o seu mais próximo, advém-lhe do infinito poder de representação do carácter humano e das suas mutabilidades, o que permite, ainda na esteira do Professor Bloom, que a obra de Shakespeare seja a mais multicultural e, por defluência, a mais pragmática de quantas poderão ser evocadas.

Ora, a posição de Bernardo Soares, fundada no interesse, e com atinências claras com a lista do ilustre professor, só aparentemente se opõe à de Harold Bloom. A asserção segundo a qual a obra de Shakespeare nos faz pensar na perfeição possível e a convocação imagética da estátua grega partida são razão suficiente para pensarmos Bernardo Soares (Pessoa) um admirador incondicional de Shakespeare. Que beleza maior que a defeituosa perfeição ou a perfeição embaciada?

Incluindo-o no pequeno rol dos que são o mundo - e essa lista, como vimos, só inclui mais Milton, Dante, o moço de fretes, o barbeiro e o criado -, é justo que se aplique a Bernardo Soares, o quase-Pessoa , aquele curioso fragmento de Álcman que diz: <<De quantos pássaros há, conheço / as melodias.>> (frg. 93 Diehl). E terá sido na música primigénia de Shakespeare, nessa morte do texto por excesso de vida, na obra definitiva que ele de si criou sem que o soubesse, que Bernardo Soares (Pessoa), precedendo-o, se encontrou com Harold Bloom. Num abraço profundo, como um sorvo original...

 

______________

* Equiparado a Assitente do 1 Triénio da ESEV.

** Utilizaremos para as citações o volume Obras em Prosa-I , de Fernando Pessoa, que inclui este título. Trata-se da edição organizada por João Gaspar Simões para o Círculo de Leitores (1987).

*** Harold Bloom é professor de Humanidades na Universidade de Yale e professor de Inglês na Universidade de Nova Iorque. Autor de um ensaísmo vigoroso e arrojado, ninguém ficará indiferente a obras como: Shelley's Mythmaking (1959), The Visionary Company (1961), Blake's Apocalypse (1963), Commentary on David V. Erdman's Edition of "The Poetry and Prose of William Blake" (1965), Yeats (1970), The Ringers in the Tower: Studies in Romantic Tradition (1971); The Anxiety of Influence (1973); Kabbalah and Criticism (1975); A Map of Misreading (1975); Poetry and Repression (1976); Figures of Capable Imagination (1976); Wallace Stevens: The Poems of Our Climate (1977) ; The Flight to Lucifer: A Gnostic Fantasy (1979), The Breaking of the Vessels (1982), Agon: Towards a Theory of Revisionism (1982); The Strong Light of the Canonical (1987); Poetics of Influence (1988); Ruin the Sacred Truths (1989); The Book of J (1990); The American Religion (1992).

**** Lembremos que, na obra sobre que reflectimos, Bloom, baseado em Vico e na sua Ciência Nova , divide o espectro literário em "Theocratic Age" (criação literária anterior a Dante), "Aristocratic Age" (de Dante a Goethe), "Democratic Age" (depois de Goethe ao advento do século) e "Chaotic Age" (do início do século ao final do século).

SUMÁRIO