"5 Maneiras de Matar um Homem" e 1 de o salvar

Vasco Oliveira e Cunha*

 

Regresso com alguma frequência a Edwin Brock e às suas "5 maneiras de matar um homem", biografia sincopada da tecnologia subsidiária da violência na morte nos dois últimos milénios. Cinco momentos da história da humanidade, em outras tantas estrofes, com contextos familiares que as artes pictóricas e gráficas se encarregaram de perpetuar, e que povoam o nosso envólucro cultural: a agonia na cruz através de uma tecnologia artesanal rudimentar; a morte pelo aço moldado em lâmina em pequenas unidades industriais alimentadas pela cavalaria medieval em guerras privadas e em conflitos mais generalizados; o envenenamento por gás nos cenários dantescos das trincheiras europeias do primeiro quinto deste século; o extermínio maciço de cidades através de uma tecnologia "limpa" que sentenciou o segundo conflito mundial; o perigo letal da rua dos meados do século XX, pela presença imaterial de uma complexa interpenetração de culturas da violência e das tecnologias delas emanadas.

Mil e uma outras receitas de violência na morte, herança colectiva do género humano, poderiam ser evocadas. Pode, por exemplo, forçar-se um homem a subir para o palco de um coliseu e abrir depois as jaulas de leões famintos. Mas para isto são necessárias multidões ululantes nas bancadas e as gargalhadas loucas do imperador de um mundo em decadência vestindo uma túnica azul bordada a ouro;

ou pode queimar-se um herege se se dispuser de uma pira num cadafalso, de tribunas para os convidados e para os inquisidores, de uma família real sentada num balcão decorado com baldaquino e sedas, de bandos fanatizados, famintos e rotos e de um bispo que encomende a sua alma ao Criador;

ou pode, à falta de uma qualquer tecnologia, encurralar-se um opositor do regime num ghetto, metê-lo num comboio com destino a um auschwitz qualquer e não lhe dar mais de comer. Precisa-se, contudo, de guardas arianos, de casernas fedorentas e de fardas de riscas pretas e brancas com números nas costas;

ou pode premir-se o gatilho de uma espingarda telescópica e fazer tombar um negro prenhe de sonhos deixando o mundo mais pobre. Bastará dispor-se de um milhão de negros, de rostos-pálidos e de peles vermelhas e de um impressionante sistema de segurança que não funcione;

ou...

ou, parafraseando Brock, será suficiente, mais simples e mais prático abandoná-lo no meio deste fim de milénio à mercê das visões pessimistas de estudiosos iluminados (cada vez mais numerosas à medida que 2001 se aproxima) ou de simples futurólogos, impostores e charlatães, que vêem já hordas do terceiro mundo, sabres empunhados, montando camelos alados à reconquista do mundo, e formigueiros orientais reproduzindo-se pelo planeta, tantos que serão mesmo capazes de o fazer tombar provocando alterações na sua órbita solar...

Linguagens antigas vestindo pensamentos velhos; ameaças tenebrosas de um novo receituário rico de violência, capaz de ressuscitar a ideia de que a paz será mais segura se mais canhões houver, um disparate tão grande como dizer que "quanto mais neve se derreter nos montes menos água correrá nos rios".

Cá por mim, prefiro manter-me fiel a uma ideia sempre fortalecida ao longo da vida - a de que só é possível salvar o homem através do desenvolvimento à escala planetária desde que sejam assegurados quatro princípios básicos: a afirmação da imprescindibilidade da ciência e da educação; o respeito pelos distintos ritmos culturais; o privilégio das palavras e das ideias, tanto quanto dos números; o equilíbrio entre o ser e a máquina.

Só os grandes chefes das maiores tribos têm hoje a possibilidade de iniciar esta aventura. Quero acreditar que nela vão empenhar-se até porque sabem que a sua própria sobrevivência só aí se encontra. Se o fizerem, e se, como creio sucederá, a miséria e a violência começarem a rarefazer-se, sou mesmo capaz de lhes perdoar que venham um dia proclamar que meteram mãos à obra apenas para salvar o homem.

Por que caminhos Edwin Brock me levou hoje!

 

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* Professor-Coordenador da ESEV

SUMÁRIO