MILLENIUM n. 5 Janeiro de 1997

 

PERSPECTIVAS

Em "Perspectivas" fala-se da vida, ou de pequenas fracções dela. De forma mais ou menos densa, mais ou menos leve, e com diferentes graus de formalidade/informalidade. Sem contornos limitadores, esta pequena secção tanto poderá constituir uma simples pausa na informação pedagógica, científica e administrativa como revelar-se fonte de reflexões complexas.

 

 

HOMO CINÉFILUS

 

 

 

Nova York, 1997. Sexta-Feira 13.

O Nevoeiro, cerrado, tolda-nos a vista. Nem Os Olhos de Laura Mars conseguem ver para além da Cortina Rasgada.

A Nuvem que paira no ar anuncia Chuva Negra.

Ao velho apeadeiro de Tombstone acaba de chegar O Combóio das 3 e 10.

A multidão, Gente Vulgar, depressa se apercebeu do facto, pois O Combóio Apitou 3 Vezes.

Alien, O 8 Passageiro, desceu as escadas e dirigiu-se, lânguidamente, à Pousada da Jamaica.

De imediato, Os Três Irmãos que a dirigem, Goldfinger, Goldeneye e Johnny Guitar se dirigem ao Cliente.

O Homem da Pistola Dourada, recém-chegado no Combóio em Fuga, com a voz entaramelada e pastosa, pediu Um Quarto Com Vista Sobre a Cidade. Veio para A Noite do Espanto, mais conhecida como A Noite dos Mortos Vivos. Para alguns, como As Mulheres do Sul, é o Halloween.

Entretanto, na Paragem do Autocarro, O Pequeno Buda mais o seu Guarda-Costas, acompanhados da Mary Poppins e da Mary Reilly , jogam um Jogo a Três Mãos.

- Por Favor Não Comam os Malmequeres! Gritam Os Caça-Fantasmas, de atalaia na Colina da Saudade.

A Rapariga do Tambor, ao volante de Christine, O Carro Assassino, continua Desesperadamente Procurando Susana...

Estamos no Ano do Dragão e, tanto Os Amigos de Alex como Os Amigos de Peter, davam tudo para descobrir O Mistério de Gorky Park.

A Mulher Falcão, Vestida para Matar, de Veludo Azul, também veio, mas no Expresso da Meia-Noite...

Carrie continua Desaparecida e, à boca cheia, pergunta-se: Quem Tramou Roger Rabbit?

 

Vive-se O Ano de Todos os Perigos mas, apesar de tudo, ainda Chove em Santiago!...

 

Combate Mortal ou Apocalipse Now?

 

Quem dera que nesta Louca História do Mundo-Parte I, Os Olhos da Testemunha jamais vislumbrem Jardins de Pedra, semeados a eito pela Fúria do Herói.

 

É urgente o Encontro de Irmãos...

 

Seja no Cotton Club ou no Clube dos Poetas Mortos!...

 

 

São

 

 

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"A HOUSE IN THE COUNTRY"

 

 

Despontar com o sol.

Soa bem, é quase poético. Mas simultaneamente estranho, pelo menos para a maioria daqueles que nasceram e sempre viveram nas grandes cidades, que vivem segundo horários, regras, leis e mais leis, subordinados a outros indivíduos, por sua vez à mercê de superiores, formando como que um ciclo vicioso.

Não seria belo acordar ao nascer do sol, num lugar só nosso, sem vizinhos barulhentos, auto-estradas e vias rápidas de um lado, construção civil e indústrias do outro, antros de prostituição e tráfico de droga, sem ter que correr para apanhar o autocarro?... Não seria belo acordar de manhãzinha com o trinar doce do rouxinol na janela, ou com o grito forte do galo, como quem diz "vá lá, é mais um dia que começa", em vez do ruído por vezes ensurdecedor do despertador, fazendo lembrar o "conselho" do patrão, ou chega a horas, ou está despedido... E deitar à noite, adormecer com o canto sereno de grilos e cigarras, ou o piar de um mocho, com a luz pálida e bela do luar a iluminar o quarto... Em vez daquela lâmpada eléctrica suspensa no tecto, fria, tão impessoal, além do ruído de algum carro que quebra o silêncio, ou de um vidro que se quebra, à mercê de algum vândalo...

Quase que dá para pensar: "Com um mundo tão belo, que faço eu aqui?". Não são parques ditos naturais ou jardins em todos os pedaços de terreno livres que nos vão ajudar a acalmar esse sentimento, que se pode tornar em culpa... Culpa por abandonarmos o campo ao seu triste destino de degradação, enquanto sofremos as consequências da evolução nas nossas grandes cidades.

E, inevitavelmente, surge a questão: porque andamos aqui a matarmo-nos, a passar o dia em canseiras, sem repousar de noite, a sofrer com problemas nervosos, psicológicos, a deixar o "smog" tomar conta dos nossos pulmões e restantes órgãos do corpo? Porque deixamos que as cidades nos consumam, quando podíamos consumir campo (isto, no bom sentido)?

Certo é que, por muitas que sejam as lamúrias, não há mudança. E a ideia de viver no campo, ter a sua horta, meia dúzia de galinhas, coelhos e outros animais, e viver do que se cultiva, é hoje utópica. É utópico viver isolado, sem a pressão insaciável e o vício dos media; é utópico deixar a chamada "fast food", ou "junk food" (por mim, prefiro esta última denominação); é utópico viver sem micro-ondas, sem telefone, sem computador... É utópico mesmo pensar nesta ideia. E falar de campo, hoje... Só em aulas de literatura, arte, geografia e pouco mais, além daquelas anedotas que por vezes propiciam a tudo menos ao riso.

Serão estas linhas comprovativas de um saudosismo latente? Não sei. Sinceramente, não sei. Não nasci no campo, (se calhar felizmente para mim) já nasci aqui, mas uma parte da minha pessoa chama-me para fora deste lugar. Será por ter familiares no interior? Será que estou farta do dia a dia citadino? Será que quero e/ou necessito de algo novo na minha vida?

Concerteza não serei a única pessoa a pensar desta forma. Já muitos se lembraram do campo, mas, possivelmente, só se lembraram, talvez para umas hipotéticas férias, ou para dar a si mesmo o luxo de ter uma casa no campo e outra na cidade...

Mas hoje já não podemos ceder o nosso tempo para pensar nestas coisas fúteis. Já nem eu posso. Não agora. Vou ver se consigo arranjar uns minutos na minha agenda.

Cláudia Assis

Comunicação Social - 2 ano

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VISÕES DO MUNDO, GRAVITAÇÕES OU O SÍNDROME DAS LONGITUDES

 

VASCO S. O. CUNHA

 

"A Visão Bostoniana do Mundo" era um poster muito popular na capital do Massachusetts nos meados dos anos oitenta. Leitura linear da vida, reduzindo o universo à dimensão dos Estados Unidos e circunscrevendo a inteligência a uma estreita faixa de terra junto ao Atlântico, exactamente no ponto em que começa a desenhar-se a curva do anzol da península que culmina um Cape Cod quase encurralando o mar, o documento tinha uma construção extremamente simples - a skyline de Boston, em primeiro plano, uma bela silhueta de arranha-céus entre Copley Square e Faneuil Hall emergindo do seio de uma metrópole muito britânica na sua sóbria arquitectura de tijolo; para oeste, estendendo-se até ao Pacífico, uma mancha uniforme de areia, sem um cacto, um réptil, um bisonte... Deserto vermelho sem vida.

Perspectivas paroquiais e narcísicas da existência (a minha terra é o mundo / o mundo é a minha terra) são comuns em diferentes culturas e sempre os seus criadores encontram explicações para a sua gestação.

No caso de Boston, a fundação da Massachusetts Bay Colony e o seu fervor puritano inicial; o Tea Party, ovo da Revolução Americana, e os grandes nomes da luta contra o opressor inglês (John Hancock, Paul Revere, entre tantos mais); o 4 de Julho, afirmação de liberdade cada ano renovada; a ascensão e queda dos Kennedy, dinastia irlandesa erigida em mito; as universidades - Harvard, M.I.T., B.U., Boston College, Massachusetts State -, para citar apenas as mais conhecidas, berços de tantos Nobel e de outros conhecidos galardões; a capacidade de trabalho ("e que mais se pode fazer num clima como o de Boston?", perguntava há anos uma personalidade local a um jornalista do "Economist"); os Red Sox e os Celtics, imagens todas de triunfo do bem, da força e da destreza, da liberdade e da inteligência, símbolos do "sonho americano".

Com tamanho património acumulado os bostonianos julgam-se com direito a afirmar, ainda que apenas através de um simples poster, as mesmas ideias do velhíssimo cardeal da inquisição no processo da Galileu: "com passos seguros movimentamo-nos em terra firme, no meio de todo o universo. Encontramo-nos no centro e os olhos do Criador descansam sobre nós, e só sobre nós. À nossa volta movem-se em círculo as estrelas e o Sol poderoso, preocupados em iluminar tudo o que nos rodeia. E também a nós. Para que Deus nos veja".

A recente inquietação e turbulência dos estudantes das universidades portuguesas, numa tentativa de travar o crescimento do ensino superior politécnico, avivaram-me esta recordação da minha primeira experiência americana.

Durante demasiado tempo o interior português (e algum litoral) foram tidos como terra de labregos, cultivadores de pão, de vinho, de azeite e de cortiça, gravitando alegremente ("o povo canta e dança") em torno da capital, primeiro, do litoral entre Setúbal e Braga, em datas mais recentes, não sentindo mesmo a necessidade de instrução porque o poder de Lisboa lhes dizia e repetia que "um povo culto é um povo infeliz".

Quando a terra não chegava, migravam uns ao sabor do calendário das culturas e das colheitas no Douro, no Ribatejo e no Alentejo e das necessidades de mão-de-obra barata para um trabalho duro num litoral que crescia e engordava, que criava emprego e serviços, que acumulava universidades; optavam outros pelas colónias, pelo Brasil, Venezuela, pela América e, mais tarde, pela Europa, ajudando a consolidar a reconstrução de um continente devastado pelo segundo conflito mundial.

Como estes labregos, sempre dobrados pelo trabalho e com uma ignorância do tamanho do mundo, conseguiam distinguir o trigo da cortiça e um tractor de uma mula, ou como faziam as suas mulheres engravidar permaceceu mistério insondável. A explicação, se alguma existisse, só poderia por certo encontrar-se no domínio do miraculoso.

Como na perspectiva bostoniana, Lisboa e o litoral elegeram-se a si próprios como corpo fixo do firmamento e condicionaram um desenvolvimento económico, social e cultural desigual no país. Todas as visões, porém, incluindo a portuguesa, têm uma vida efémera - nascem, crescem, morrem. Por vezes ressuscitam para morrerem de novo, não resistindo à realidade da vida nem à vontade reflectida do homem.

Há cerca de três décadas o país periferizado começou a ensaiar experiências laboratoriais complexas. Misturou num cadinho a força do seu trabalho com a dura experiência adquirida mundo fora, adicionou-lhe uma pitada da escolaridade obrigatória acrescida introduzida no sistema e verificou que tinha já algumas hipóteses de êxito na fuga ao subdesenvolvimento. A opção pela via democrática e a subsequente integração europeia ajudaram a gerar em Portugal uma filosofia de necessidade de partilha de algum poder com o interior e a ramificar iniciativas. A criação e a difusão do ensino superior politécnico público, entendido como factor determinante de desenvolvimento regional, por outro lado, potenciaram um aproveitamento mais amplo da inteligência portuguesa abrindo para muitos jovens do interior perspectivas de uma mobilidade social quase proibida até meados do nosso século.

A obstrução ao enriquecimento da formação em qualquer área do conhecimento não é uma atitude esclarecida e honesta. Ela revela ignorância das transformações internas operadas no país, ou a recusa da sua aceitação, o que, a ser verdadeiro, representaria a hostilização, para benefício próprio, da ideia democrática e da sua prática. Revelaria ainda o desconhecimento ou a recusa de dois princípios fundamentais do progresso nas sociedades contemporâneas, concretamente: que o desenvolvimento de uma nação não pode ser interpretado apenas por minorias, e que a causa decisiva do êxito se encontra essencialmente na qualificação elevada dos seus cidadãos.

O sol não nasce todos os dias para iluminar apenas castas privilegiadas. Sabe-se, pelo menos desde Galileu, que o modelo ptolemaico do mundo estava de acordo com a filosofia (ou vice-versa) mas não com os factos, e que estes punham em perigo uma certa construção harmoniosa do mundo. Isto é, a Terra deixava de ser o centro do universo, Roma o centro da Terra, a cadeira papal o centro de Roma. E esta é ainda uma realidade difícil de tragar para alguns.

 

FONTES:

ABBAGNANO, N. História da Filosofia (vol. VI). Lisboa: Editorial Presença, 1982.

BRECHT, B. Dificuldades de Governar. In Poemas. Lisboa, Editorial presença, s/data.

BRECHT, B. Leben des Galilei. Berlin: Suhrkamp Verlag, 1955.

HORTON, R.W. and EDWARDS, H.W. Backgrounds of American Literary Thought. New York: Appleton Century - Crifts, Inc., 1952.

SUMÁRIO