SER EDUCADOR ...

Ana Paula P. O. Cardoso*

 

"Ama e empenha-te na construção de uma nova humanidade: poderiam afixar à «porta» do século XXI" (Amorim, 1995).

 

Esta afirmação soa-nos, hoje, provavelmente, despropositada e anacrónica. Mas é com ela que Isabel Amorim conclui um dos capítulos da sua dissertação sobre "Valores e Reforma Educativa". Afirmação ousada nos tempos que correm e que nos levou a reflectir sobre o nosso papel educativo, na actualidade, tendo em vista a construção de uma sociedade mais humanizada.

Vivemos num final de século, numa época em que as mudanças se sucedem de uma forma ampla, rápida, contínua e, por vezes, inesperada. Num período caracterizado por uma crescente perplexidade, inquietação e, mesmo, por alguma desorientação.

É comum falar-se em "crise" da sociedade, querendo com este termo significar momentos conturbados, de viragem, em que se impõem decisões/opções. Esta crise social geral é acompanhada por uma sensação de perda de sentido. Para onde vamos? Que fim devemos perseguir? Qual é o resultado que queremos alcançar, a longo prazo?

No seu significado original, do grego antigo, o conceito de crise - Krinein - significa distinguir, separar, decidir. Na origem um objecto concreto, um crivo, uma peneira para separar elementos de tamanho diferentes. Por abstração, o juiz que decide separa os "prós" e os "contras". Como símbolo, uma balança. Nesta acepção, crise implica uma atitude de escolha, de eleição.

No seu significado médico clássico (conceito do médico Hipócrates, séc. V a.C.), o conceito significa estádio na evolução de uma doença em que o destino do paciente é incerto. Um momento decisivo na evolução de uma doença ou para melhor (a cura) ou para pior (a morte).

No seu significado mais moderno, uma situação de conflito e desordem de alguma parte do nosso funcionamento normal e que é determinante da sua continuidade ou da sua modificação (Young, 1989). Este conceito aponta, também, para uma situação de incerteza e uma necessidade de escolha.

A crise é antes de mais axiológica. Ela tem, como é óbvio, importantes reflexos na educação. Com efeito, toda a acção educativa pressupõe uma escolha, mais ou menos assumida, de valores que constituem linhas de força na orientação da criança ou do jovem que é preciso educar. O "mínimo acto educativo aparentemente mais insignificante se nutre inevitavelmente de uma concepção global do mundo e da vida (Patrício, 1984, p.105)".

Perante este cenário de mudanças, de falta de opções claras e de contradições a diversos níveis, urge mobilizar vontades para encontrar saídas. A ausência de sentido, essa, reforça a própria crise, na medida em que obscurece o futuro e limita, de uma forma drástica, as suas saídas. Como diria Patrício, se nós formos capazes de encontrar uma escala de valores, também seremos capazes de resolver a crise!

Cabe, pois, reflectir sobre o nosso contributo educativo neste tempo e nesta sociedade. Tem sido um papel de modo a facilitar ou a dificultar a procura de um sentido realmente significativo e valioso? Como nos revemos, então, nesse papel?

 

A nosso ver, a aposta estará numa outra atitude perante os "outros" e perante a vida, mais facilitadora de uma verdadeira procura dos valores que vale realmente a pena viver.

Um passo em frente seria o proporcionar os meios pelos quais os jovens pudessem tornar-se efectivamente aptos a escolher de uma forma consciente e crítica, nomeadamente através do diálogo, do testemunho pessoal e da vivência de experiências de vida significativas.

Uma vertente importante desta viragem passaria pelo combate às actuais formas de alienação das sociedades modernas, tais como a impessoalidade e a uniformidade decorrentes dos imperativos económicos e tecnicistas das sociedade ocidentais/ industrializadas.

Outra vertente, não menos importante, passaria por se estar atento e alerta face aos efeitos clip das modernas sociedades de consumo, ou seja, à iminência de nos tornarmos objectos apensos, manipuláveis e descartáveis face aos interesses e às contingências do momento.

Numa época em que se assiste à ruptura e desconstrução dos antigos valores e à emergência de novos valores, incentivar o debate profundo , alargado a toda a sociedade, e sem preconceitos, parece ser uma prioridade. Não menos o será encontrar novos ideais que perfilem a construção de amanhãs que se desejam mais justos e humanos.

 

FONTES:

AMORIM, I.C., Valores e Reforma Educativa no Ensino Secundário, Coimbra, Fac. de Psicologia e de Ciências da Educação, 1995 ( Tese de Mestrado).

CARDOSO, A.P., Ritos de iniciação na adolescência, Forum Sociológico, Lisboa, I.E.D.S., no5, 1994, 61-73.

CARDOSO, A. P. e RIBEIRO, E. J., Pressupostos Epistemológicos da Ciência: Implicações em Alguns Domínios - Psicologia e Psicopedagogia, Viseu, I.P.V., 1992.

YOUNG, R.E., La crisis de la educacion actual: Habermas y el futuro de nuestros hijos, Revista de Educación, 291, 1989, 7-31.

PATRÍCIO, M. F., Teoria da Educação, Évora, Universidade de Évora, 1984.

SING, R. R., Changer l' education pour un monde qui change, Perspectives, vol. XXII, no1, 1992, 7-20.

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* Professora Adjunta da Escola Superior de Educação de Viseu

SUMÁRIO