CARTA A I., UMA MULHER ETÉREA

QUE SEMPRE POR ENTRE OS MEUS DEDOS SE EVOLA

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA *

 

Do Sal se diz com frequência que é feia e triste, ora tijolo ora cinza escurecida, planura monótona, ressequida e sem sombra, aqui e além fendida por sulcos onde correm projectos de torrentes impetuosas, mas instantâneas, terra varrida pelo vento leste com quem os caboverdeanos aprenderam a "bailar na desgraça" e onde só a presença material e constante do mar limita as probabilidades de o viajante se imaginar transportado por engano para a superfície da Lua. Vozes de olhos ocidentais, fronteiras impermeáveis de egos culturais, sofisticação desbordante velando superficialidades de valores, clichés inférteis de outros mundos e de gentes de ar condicionado, pulseiras de ouro genuíno e colares de diamantes, impressões à flor da pele, as essencias intocadas, as gentes esquecidas.

Não foi neste Sal que tu viveste todo o tempo comigo! A ilha em que te reencontrei depois de anos de solidão no bulício e na vertigem de outras latitudes - a vida tornada absurdo - , o deserto quase deserto que contigo percorri esconde encantos muitos que é necessário procurar e que juntos descobrimos:

No caos vulcânico da costa norte, precipícios de arestas de faca andaluza, inferno de Dante e dos contos da minha infância, arquitectura sem plano, imprevisível, dialéctica, magnífica, rocha negra num fundo esmeralda;

Na planície quase perfeita da Terra Boa (celeiro do arquipélago quando ainda havia chuva), os cones Leste e Grande por sentinelas, árida e sonolenta, ritmando a vida num dó-ré-mi-fá de modorra gerador de rotinas, a irracionalidade bem próxima, subitamente metamorfoseada numa curva do trilho que os todo-o-terreno vão cavando no pó em paisagens impressionistas onde fomos remadores de Renoir, em Asnières, velejadores de Monet em Argenteuil, velas enfunadas sob um céu de prata entre salgueiros e choupos, linhas ora oblíquas ora perpendiculares espelhando-se na água, miragens repousantes, neblina acinzentada dos alvoreceres da primavera, que se resolvem em pó para surgirem um pouco mais adiante num vaivém de volúpia;

No Funaná da praia, cingindo a tua cintura, os sons de uma coladeira aquecendo a quentura dos corpos, o erotismo erigido à condição de instinto supremo, a dança como síntese da nossa Vida;

Nas crianças de Santa Maria, filhas de avós, o pai e a mãe espalhados pelo mundo em busca da esperança, sorrisos lindos, tranças de horas de enlevo das mães-avós vestidas de negro, roupagens pobres, cosidas, remendadas mas imaculadamente limpas, vozes cristalinas e ingénuas, gentileza morabeza que a "civilização" ainda não perverteu;

Na ponta sul, onde o mar laboriosamente bordou uma fita de areia branca e sedosa quando se deu conta que a lava, já exausta, perdera o ímpeto criativo, imobilizando-se, e escolheu para as suas águas as cores de safira e de esmeralda de onde tu, como ninfa, emergias, Ashtaroth oriental, Zerynthia trácia, Afrodite grega, filha de Kronos e do mar, Anadyomene cipriota, silhueta de espuma beijando o meu corpo aquecido pelo sol tropical e apagando, como antes o alíseo, o nome que os meus dedos, imitando o poeta, haviam esculpido na areia. O teu nome, Ilusão! Para o eternizar, escreveu-o Spenser no céu; gravei-o eu mais longe ainda - na minha mente - para lhe dar vida na minha paz, no meu silêncio, nas minhas infindáveis peregrinações pelo tempo.

Sei que não viajarás comigo para o Ocidente mais ou menos culto (muito mais menos do que mais) onde tenho de regressar porque nele sufocas, correndo mesmo o risco de perecer. Mas sei também que te reencontrarei em breve num dos poucos lugares da Terra onde o turbilhão e a materialidade da vida e a violência dos homens não dispõem ainda de espaço-numa rua de Iquique, num mosteiro de Katmandu, ou num oásis do Sahara, do Kalahari ou do Tar para de novo partilharmos a Vida.

 

Santa Maria (Sal), Abril de 1997.

 

* Professor-Coordenador da ESEV

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