UM MONSTRO QUE PISA COM FORÇA

 

ILIANA PEREIRA *

 

 

Abordo uma realidade que nada tem de pacífico na sociedade contemporânea: a Tragédia do trabalho infantil.Numa altura em que o futuro ameaça ser assustador, as crianças, essas, são as principais vítimas.

É certo que, no nosso quotidiano, a opinião pública tende cada vez mais a proteger a criança do mundo do trabalho. Porém, é também um facto inegável que a exploração do trabalho infantil continua a existir, sempre com origem quer em problemas de ordem económica e na intolerável ganância, quer na ignorância do mundo adulto.

As crianças são mais vulneráveis a este tipo de exploração, quer pelo seu estado de pureza e ingenuidade, quer pela sua rebeldia e curiosidade. A ânsia de conhecimento, a necessidade constante de se revelarem ou esconderem nos seus comportamentos, extra ou introvertidos, são alguns dos factores que as expõem a este perigo.

Todos nós sabemos que o lugar da criança e dos jovens é na escola e em actividades lúdicas que a ajudam a crescer. No entanto, existe uma parcela significativa do mundo adulto que provoca o crescimento prematuro das crianças, lançando-as no mundo do trabalho. Braga, Aveiro e Porto são os distritos onde esta realidade atinge as percentagens mais assustadores, onde crianças entre os 10 e os 14 anos deixam de ir à escola. Fala-se já em cerca de 200.000 crianças que trabalham na construção civil, calçado, confecções e oficinas de mecânica.

O trabalho infantil é um dos sinais mais claros de exploração e corrupção, uma forma de injustiça e, principalmente, um apelo à renovação da nossa sociedade.

As crianças são seres humanos, seres que necessitam de se desenvolver, quer física, quer psicologicamente. Uma criança é a verdade com a cara suja, dotada de alento e sabedoria. Com os seus cabelos desgrenhados, ela é o perpétuo simbolismo da arte de brincar, de saltar, de correr e de cair. Ela é a esperança no futuro, é o trono da magia, dos sonhos que, na maioria das vezes, são desfeitos e destroçados. Tímida como uma flor, a criança é o símbolo da liberdade. Infelizmente, hoje, esta é uma imagem quase utópica.

Perante a inocência do sorriso de uma criança, perante a candidez do seu olhar, como se justifica a admissão de uma tal "escravatura infantil"? Numa sociedade que se diz justa, o trabalho infantil continua a ser um dos principais flagelos dos nossos dias. Num quotidiano onde os cidadãos se julgam cultos, será admissível que algumas pessoas considerem este tipo de escravatura uma "escola de virtudes" onde a criança, ingressando precocemente no mundo do trabalho, fica preparada para um mundo corrupto, irresponsável e materialista? Não haverão algumas medidas a tomar, mais dignas, mais piedosas, mais humanas?!...

Onde está o bom senso do ser humano? Não será esta exploração digna de uma severa punição, ou deixaremos arrastar tal situação até atingir um nível ainda mais catastrófico?!...

Muitas são as vezes que ouvimos dizer que as crianças são o futuro da humanidade, mas neste mundo já não podemos falar de futuro, porque ele é assustador. Como podemos sobreviver num mundo que, aos poucos, destrói a coisa mais preciosa que possui, -as crianças- e que, de algum modo, poderia mudar o rumo dos acontecimentos? Será justo transformar a imensidão de um recreio que caracteriza a vida de cada criança numa sinuosa prisão?

Estes são apenas alguns rastos que o tempo vai deixando para trás, uma das mais profundas cicatrizes da nossa sociedade. E, apesar de tudo, a vida continua...

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* Aluna do Curso de Comunicação Social da ESEV

SUMÁRIO