UMA QUESTÃO DE VALORES ...

ANA PAULA P. O. CARDOSO 1

 

Na anterior Millenium procurámos evidenciar a importância em assumir uma atitude educativa facilitadora da procura dos valores que vale a pena viver, no sentido de procurar saída(s) para a crise axiológica em que as sociedades ocidentais se encontram e proceder à construção de uma sociedade mais humanizada.

Neste âmbito, retomamos a questão dos valores para ilustrar como podem ser diversas as hierarquias dos valores e também para mostrar que as opções que fazemos a este nível têm profundas implicações nos nossos juízos de valor, atitudes e comportamentos, em geral.

Neste sentido, iremos citar uma curiosa história passada na Grécia Antiga, a respeito de Filipe II da Macedónia e de seu filho Alexandre, que viria a ser Alexandre Magno, e que nos é relatada por Patrício2.

"Durante um banquete pelo rei macedónio oferecido à sua mais qualificada nobreza aconteceu a certa altura ter o jovem Alexandre tocado flauta com suma perfeição. Surpreendido e admirado com a qualidade de exímio executante do príncipe, manifestaram os nobres presentes o seu agrado com ruidosos e fartos aplausos. Só Filipe, o rei, não aplaudiu. O seu filho acabara de mostrar possuir uma habilidade de escravo, de homem de condição servil: uma praxis, em suma; e repreendeu Alexandre com estas palavras severas: Não te envergonhas de tocar tão bem? Palavras estranhas para nós, que as ouvimos coadas por um filtro de 2500 anos..."

É propositada a escolha de uma história tão recuada no tempo. Esta grande distância temporal poderá ajudar-nos a apreciar e a analisar com mais clareza e objectividade a situação apresentada, ocorrida num contexto cultural que é diferente do nosso e que possui também uma hierarquia de valores diferente, designadamente no que concerne à forma de valorizar a praxis3.

A situação em apreciação é a seguinte: Alexandre executa primorosamente uma melodia na flauta e o seu pai, Filipe II, repreende-o perante as mais destacadas figuras da sociedade. Atendendo aos nossos padrões culturais, seremos nós realmente capazes de compreender a reacção de Filipe II face ao seu filho, Alexandre? Não é facto que o príncipe revelara possuir qualidades de exímio tocador de flauta e fora tão agradável escutar aquela melodia? Então, qual(ais) a(s) razão(ões) da atitude do rei?

Estamos numa época que vive o frenezim do afazer, em que a acção de levar a cabo algo domina quase inteiramente o quotidiano. Vivemos numa sociedade em que prevalecem os valores hedónicos e os valores utilitários, ou seja, em que o prazer, a acção imediata e a instrumentalidade são dominantes (ainda que em ideal se apelem a outros valores). No entanto, na cultura helénica, estes valores são considerados, numa escala hierárquica, inferiores aos valores do saber, da lógica e racionalidade.4

As palavras de Filipe II são, pois, perfeitamente compreensíveis para um grego da época clássica. Elas exprimem com toda a clareza a distinção helénica entre o saber da contemplação e o saber da acção. Para os gregos a teoria é o modo mais alto de saber. A praxis não é, portanto, um modo de saber ou de saber-fazer lateral à teoria, mas inferior à teoria (Patrício, 1983).

Com efeito, Alexandre não estava a comportar-se como um heleno, pois acabara de revelar qualidades não dignificantes[FF1] para um nobre representante da sociedade. Nele prevalecia a vontade de poder sobre a vontade de ver; o gosto de fazer sobre o gosto de saber, o querer ter sobre o querer ser. E, de facto, a História da Antiguidade assim viria a recorda-nos este futuro monarca: "Alexandre Magno, o conquistador"...

1 Professora-Adjunta da ESEV

2 Este curioso trecho é-nos relatado por Manuel Patrício em Teoria da Educação, Universidade de Évora, 1983, p. 55, no capítulo III - Pedagogia e Filosofia , num contexto de defesa do homem como ser pensante. No âmbito desta nossa intervenção, iremos retomá-la, mas apenas na perspectiva de uma leitura axiológica.

3 Para os Gregos, praxis significava "todo o afazer, transacção ou negócio, isto é, toda a acção de levar a cabo algo. O vocábulo designava também a acção moral, isto é, a acção de levar a cabo algo podia ser "interior" ou "exterior"(Patrício, 1983, p.55).

4 Até hoje nenhuma cultura foi tão admirada pelo legado cultural que foi deixado em domínios diversos desde a Filosofia e Ciências em geral, à Literatura, às Artes ou à Política.

SUMÁRIO