UMA LEITURA EM PERSPECTIVAS NUM CAMINHAR DE SEDUÇÃO

 

FERNANDO ALEXANDRE LOPES *

 

Permite-nos esta secção da Millenium escrever sobre assuntos que nos são dilectos, mas com a forma leve e informal que, para outras circunstâncias, nos exigiriam aquela arquitectura reivindicada pelo ensaio, com as suas roupagens e investiduras peculiares.

Por isso, e após esta captatio benevolentiae inicial, propomo-nos apenas hic et nunc expandir, ao correr da pena, uma ideia muito genérica sobre Vergílio Ferreira (o escritor que emblematizou a capa do número anterior desta revista), partindo de uma asserção, no nosso entender muito feliz, de Daniel Pennac, em que se lê: «Le verbe "lire" ne supporte l’imperatif. Aversion qu’il partage avec quelques autres: le verbe "aimer"... le verbe "rêver"».

Se o acto de leitura é um espaço de sedução e uma possibilidade de revitalizar o onírico em todas as suas dimensões, é óbvio que qualquer processo de injunção ao leitor lhe é refractário, no sentido de ele poder reconstituir o universo imaginário que o autor criou para sua fruição.

Fruir não pode partir, então, de um imperativo fácil, e muito menos no que se refere a uma obra que tenha resultado da pena inquietante e espicaçadora de Vergílio Ferreira, onde a complexidade da escrita se entrecruza com o "milagre de ver".

As "realidades imigrantes" do mundo empírico patenteados no universo ficcional de Vergílio Ferreira – Distância; Memória; Lua; Espelho; Pai; Mãe; Aldeia; Montanha; Noite; Porta; Pedra; Solidão; Prisão; Casa; Igreja; Morte; Vida; Aparição; Alarme; Fogo; Limite; Água; Neve; Céus; Praia; Amor; Arte; Silêncio; Mulher; Dança; Álcool; Tempo; Ordem – problematizam-se numa dimensão aporética, em que se rejeita a explanação de uma tese acabada e, sobretudo, o espectáculo fiel de todo o real que nos circunda.

É assim que podemos afirmar que em Vergílio Ferreira se discutem várias questões de ordem metafísica, sintetizadas na tríade mundo, homem e Deus, onde o saldo final é uma reflexão e uma interrogação, sem consequências necessárias de foro didáctico-filosófico.

O percurso do herói vergiliano dimensiona-se numa atemporalidade, mas com demarcações temporais instituídas pela força da memória e da distância, que impõem uma emoção e uma subjectividade de transfiguração lírica. É o caso, por exemplo, do protagonista de Aparição, que é a instância responsável por contar a história que narra e é narrada. De qualquer forma, a coincidência entre o "eu narrante" e o "eu narrado" não impossibilita que exista um só sintagma narrativo em horizontalidade discursiva.

Este aparente solipsismo – tão visível em qualquer uma das suas obras, como Manhã Submersa, Alegria Breve, Nítido Nulo, Rápida a Sombra, Para Sempre, Em Nome da Terra, Na Tua Face, para só citar algumas – logo se desvanece numa análise mais atenta, se atendermos à constante invocação do "tu", que constitui o ácido destruidor de um infecundo autismo.

A busca de Deus em Vergílio Ferreira não constitui matéria fácil para se sintetizar num escorço rápido. É que esse mesmo problema teria que se integrar num postulado mais abrangente, onde entrássemos numa discussão elaborada sobre o Absoluto, o Sagrado e a Sacralização pela Arte (e.g. a Pintura em Cântico Final; a Música e a Literatura em Aparição e em Para Sempre).

«Meu Deus» em Vergílio Ferreira implica uma linguagem performativa e não apenas um fluxo de voz já contumaz. Na verdade, a hierofania ou manifestação do sagrado acontece, quer em lugares concretos de referência religiosa (e.g. o encontro de Alberto e Ana na Sé de Évora em Aparição), quer em construções imagéticas, onde a morte não pode ter razão contra a vida, porque a vida é um eterno recomeço. Lembremos mais uma vez a obra Aparição, na sua parte final, no momento em que o Dr. Alberto Soares, à noite, na casa do Alto de São Bento, avista um incêndio do restolho, e o relaciona com a aparição da cidade fantástica, que arde numa destruição universal para uma renovação da terra.

O herói vergiliano sente particularmente a sede do místico, quando não consegue ver a imagem da sua condição. Então a transcendência revela-se-lhe nas situações-limite, em que ele se angustia porque sabe que não pode deixar de morrer.

Relativamente a este último aspecto, e estabelecendo agora um paralelismo entre o pulsar de alma do autor textual e do autor empírico –: não será legítimo relacionar esta incessante procura de Deus e do Absoluto das personagens criadas por Vergílio Ferreira com uma das últimas afirmações do escritor «Entrarei no Paraíso a escrever» (leia-se «a pensar»)?

Rematamos esta breve nótula, transcrevendo uma passagem de Aparição (final do cap. XVIII), por constituir para nós um dos maiores exempla do romance lírico na Literatura Portuguesa Contemporânea, e em que esse mesmo lirismo perpetua in aeternum o acto de escrita como uma elevação às supremas artes do Absoluto:

«Não me deitei em toda a noite, sentado pelos bancos do corredor, divagando pelo hospital. Alfredo e Chico tinham sido examinados pelos médicos, não havia senão leves contusões. Pela madrugada entrei enfim no teu quarto, Cristina. À luz frouxa da lâmpada que rezava ao pé de ti, vi-te enfim a face branca coroada de ouro. E a certa altura, sem que ninguém mais tivesse visto, só eu vi, só eu vi, Cristina, as tuas mãos pousadas sobre a dobra do lençol moverem os dedos brevemente. Era um movimento concertado das duas mãos, mas num ritmo de cansaço final. Na dobra do lençol tu sentias o teu piano, tu tocavas, Cristina, tu tocavas para ti e para mim. Música do fim, a alegria subtil desde o fundo da noite, desde o silêncio da morte. E eu ta ouço ainda agora, Cristina, gelado à lua verde deste Março na montanha, entre o vago deserto que alastra à minha volta e este húmido afago que me vela os olhos de ternura...».

* Professor-Adjunto da E.S.E.V.

SUMÁRIO