A URGÊNCIA DA CRIATIVIDADE

 

VITOR MANUEL TAVARES MARTINS*

 

" Era uma vez uma galinha branca que punha ovos azuis...

Ovos azuis? - reclamou a professora, indignada, interrompendo a leitura da minha redacção, enquanto a turma se agitava em risinhos de troça e segredinhos maliciosos.

Ovos azuis, sim, senhora professora - respondi eu. - A minha galinha põe ovos azuis.

A menina está a brincar comigo? Já viu alguma galinha pôr ovos azuis? Sente-se imediatamente e faça já outra redacção.

Voltei para o meu lugar, de cabeça erguida, enfrentando a galhofa da turma.

Não baixei os olhos. Apenas os senti escurecer, num desafio.

Durante o recreio fiquei na aula, de castigo. Mas não fiz outra redacção.

Quando, depois do "toque", a professora me chamou para que lesse em voz alta a Segunda versão, comecei:

Era uma vez uma galinha branca que punha ovos brancos, só porque não a deixavam pôr ovos azuis..."

 

Maria José Balancho

 

Este pequeno texto ilustra exemplarmente uma forma de se aniquilar a capacidade criadora. Aquela professora reprimiu a propensão fantástico-imaginativa da criança, bem como a sua auto-estima, e perdeu uma bela oportunidade de estimular ainda mais a imaginação e de favorecer a emergência de uma atitude e sensibilidade positivas, favoráveis ao próprio potencial criador. Presa nas malhas de um realismo redutor e anafado, possivelmente vítima da sua formação behaviorista, formatada pela rigidez dos modelos comportamentais sociais e escolares do dia-a-dia rotineiro, a docente não foi capaz de perceber que, como escreveu R. Marin, a criatividade é o princípio dos princípios da Educação Moderna. Não se predispôs a entender que a criatividade deve estar no topo das intenções pedagógicas. Podendo funcionar como meio e/ou como fim (ver "Visão Integrada de um Projecto de Educação Criativa"), a criatividade deverá ser desenvolvida de forma sistemática, com carácter disciplinar, interdisciplinar e transdisciplinar, por forma a evitar que "o professor seja o arado ferrugento e a turma a terra árida que não consente ser lavrada". (BALANCHO e SANTOS, 1992)

 

Visão Integrada de um Projecto de Educação Criativa

 

INOVADORES CRIATIVOS

A

. Procedimentos (atitudes) do professor

. Definições de métodos e de técnicas a utilizar (activadores criativos)

CRIATIVIDADE

COMO

ß

CONJUNTO DE PROCESSOS CRIATIVOS

MEIO

. Espontaneidade/ . Sensibilidade/ .Liberdade e variedade de

expressão de pensamento/ . Relação e analogia/ . Fantasia

 

ß

INOVAÇÃO CRIADORA

 

. Alteração da mentalidade (professor e aluno)

. Alteração do conceito de Escola

 

B.

ß

LINGUAGENS CRIATIVAS

A

CRIATIVIDADE

. Expressão plástica, expressão linguístico-literária, expressão

corporal (psicomotriz), expressão dramática, expressão musical

COMO

FIM

ß

PRODUTOS CRIATIVOS

 

. científicos, tecnológicos, literários, artísticos, plásticos, musicais

 

ß

SOCIEDADE

 

Ñ Cultura auto-renovada e inovadora Ñ

 

Desenvolvimento humano integral

 

(BALANCHO e SANTOS, c., p.13)

 

A professora não assumiu que um dos objectivos do ensino é "desenvolver as capacidades de expressão e comunicação da criança, assim como a imaginação criativa (...)" -- alínea f) do artigo 5. Da L.B.S.E. -- e um outro é "assegurar uma formação (...) a todos os portugueses que lhes garanta a descoberta e o desenvolvimento dos seus interesses e aptidões, (...) da criatividade" -- artigo 7., alínea a), L.B.S.E.. Provavelmente assustada com a desmontagem e posterior expansão em espiral do acto criativo, a professora entende que a criatividade é privilégio ou ameaça de génios ou loucos e não uma capacidade fundamental do ser humano, que não há lugar para ela neste mundo normativizado, que nem todos somos ou podemos ser criativos, que "nem todos se podem dar a esse luxo". Falso! A criatividade é um bem inesgotável, é de todos e para todos e é por ela e com ela que, como diz o poeta, "o mundo pula e avança".

Se "dar uma oportunidade à criatividade é uma questão de vida ou de morte para qualquer sociedade", como afirmou Arnold Toynbee, pois que uma sociedade que não cria e não inova está moribunda, também implementar a prática da criatividade na Escola é, no meu entender, uma forma de esta se manter viva, de não fenecer. Se a imaginação criadora for estimulada sistematicamente na Escola, a mudança e a inovação serão favorecidas e treinar-se-ão capacidades que têm sido esquecidas ou desvalorizadas -- como é o caso do pensamento divergente. Através do desenvolvimento da capacidade criadora promover-se-á autonomia, a responsabilidade motivadora e um crescimento mais equilibrado e global da criança. As suas manifestações criativas podem, de igual modo, ajudar-nos a compreender melhor o desenvolvimento emocional, intelectual, físico, perceptual, social, estético e criador da criança. Por exemplo, as crianças cuja criatividade fique inibida, por regras ou forças que lhes são alheias, podem retrair-se e, então, recorrer a formas estereotipadas de criação (cópias, linhas ou ideias de outros, adopção de perspectivas gastas, etc.) ou mesmo deixar de praticar e de Ter gosto na própria criação. A criança emocionalmente livre, desinibida, na expressão criadora, sente-se segura e confiante ao abordar qualquer problema que derive das suas experiências.

A criatividade pode, igualmente, trazer outra relevância à forma como o sistema escolar está organizado. Se o professor tem a responsabilidade de organizar o processo ensino-aprendizagem, de proporcionar os materiais didácticos, de decidir sobre o melhor método para o estudo do currículo, a presença sistemática da criatividade nas suas planificações -- abertas ou fechadas -- desencadeará na criança a procura das suas próprias respostas e soluções, de forma interessada e apaixonante, em vez da recepção, pura e simples, dos valores e conhecimentos do professor. Para além disso, podemos observar que "a criança cria a partir de qualquer grau de conhecimentos que possua na fase em que se encontra. O próprio acto de criar pode fornecer-lhe novos vislumbres, novas perspectivas e nova compreensão para a acção futura. Provavelmente, o melhor preparo para criar é o próprio acto de criação". (LOWENFELD e BRITAIN, 1977).

Num sistema educacional equilibrado, em que o desenvolvimento do ser total é realçado, "o pensamento, o sentimento e a percepção do indivíduo devem ser igualmente desenvolvidos, a fim de que possa desabrochar toda a capacidade criadora em potencial"(LOWENFELD e BRITAIN, c.) Há que alterar, pois, a mentalidade e o posicionamento dos adultos, daqueles que não fomentam a criatividade, tanto na escola como na família. Os adultos devem deixar de reprimir, por exemplo, o que muitas vezes é considerado um comportamento infantil nos jovens (que os seus filhos mais velhos deixem de fazer "criancices"). De igual modo, o professor, sobre quem é exercida uma enorme pressão conformista -- para que se conforme com as normas de conduta da escola --, deve ser o modelo (e o líder!) para que o jovem adquira estimulo para criar. Na sua formação, inicial e contínua, estes aspectos devem ser considerados, pois, como disse R. Laing, "a nossa capacidade de ver, de entender e de sentir está de tal forma asfixiada pelos véus da mistificação, que é necessária uma disciplina intensiva para desaprender, para poder começar de novo e descobrir o mundo com inocência, lucidez e amor". É que ser professor, hoje, deve significar "acreditar e investir na formação do Homem, através da liberdade inteligente e responsável, "não ser" um Prometeu agrilhoado no abismo da existência, em suma, possuir a "lucidez dos deuses" aliada à capacidade de realização dos homens". (BALANCHO e SANTOS, ibid.) Fiat lux !

*Professor efectivo da Escola Básica 2,3 de Valongo do Vouga-Águeda.

SUMÁRIO