DE MICENAS A ATENAS, OU A POSSIBILIDADE DE REVER A LENDA, O MITO E A REALIDADE ATRAVÉS DO OURO

 

VASCO OLIVEIRA E CUNHA *

 

Se contemplar peças de joalharia grega do nosso tempo nas ruas de Olímpia, de Corinto, de Atenas, ou de qualquer outra cidade, reproduções de obras de artistas clássicos - o Pórtico das Korai, das donzelas, do lado sul do Erechteion, Cariátides, como lhes chamaram os romanos pela sua semelhança com as bailarinas da lacónia nos cerimoniais em honra de Artemisa; os Hydriophoroi, atenienses vigorosos carregando vasos de água nos ombros rudes, e as Canephoroi, no friso norte de Parthenon, virgens da polis, cestos de fitas na mão na procissão das Panateneias para a decoração dos animais sacrificados a Atena protectora; a Apoteose de Hércules, o herói, na companhia de Hermes, recebido pelos deuses do Olimpo depois de terminados os seus trabalhos, Zeus majestaticamente sentado no seu trono, Hera, a divina esposa argiva, a seu lado, - se contemplar estas jóias, e mil outras, escrevia, é envolver a mente na estética de encanto do labiríntico tecido da cultura dória;

Se extasiar-se, no Museu Arqueológico de Atenas, com a arte mecénica de trabalhar o ouro, as pedras preciosas e o marfim - tiaras, diademas em forma de folhas romboidais, gargantilhas, colares, pendentes, anéis, punhais decorados, miniaturas, máscaras funerárias ..., pode transformar-se numa aventura fantástica no bronze e na atmosfera mental aqueia e jónica de há quase quatro milénios, caldeada pela cultura cretense, para além da Argólida, difundida na Lacónia, no Istmo e na Grécia Central;

Viajar na Grécia pode constituir a oportunidade ímpar de tentar entender a convivência do mito, da lenda e da realidade, a guerra permanente, a criação artística, de pensar o tempo no espaço em que o tempo aconteceu. Tarefa complexa, apenas ao alcance de um número muito reduzido de especialistas entre os quais, naturalmente, me não inclúo.

Dos dórios, e particularmente do mundo indo-europeu que os jónios, os aeolos e os aqueus, subjugando os Paelasgos, criaram no Peloponeso (em Micenas, Argos, Pylos, Tiryns, Korakou, Amyclae..., alargando-o depois a Creta, ao Egeu e ao Jónio, ao Egipto, às costas da Ásia Menor, a Chipre, à Síria e à Sicília), conservo memórias de ilusão, da realidade envolta numa neblina cada vez mais densa à medida que recuo no tempo, imagens que não me permitem ir além dos contornos e das silhuetas, fascínio que me liberta do rigor (?) da história e que me impele para visões de sonho e de pesadelo que, aqui e além, bem poderão coincidir com a realidade. A começar pela terra onde tudo começou . O Peloponeso é aquela mão adormecida à sombra dos laranjais do norte e dos olivais meridionais, tetradáctila, sem medida, que as águas tépidas de azul profundo do Jónio, do Egeu e do Golfo de Corinto acariciam e abraçam, um amplexo tão estreito que parece quererem fazer regressá-la à condição de ilha, quase lhe cortando a ligação umbilical com a Ática; terra de fracturas sem conta que a atomizam em compartimentos solitários, a seiva irrigando-os de forma descontínua, os principais massiços criando planícies e planaltos interiores; mares de golfos profundos bordejando planícies aluviais separados pelos dedos nodosos e disformes apontando o Sul e o Egipto.

Poseidon, filho de Cronos e irmão de Zeus e de Hades, cansado do palácio submarino em que vivia ao largo da Eubeia e das divinas querelas perdidas pela posse de Atenas, de Aegina e de Naxos para poder morar em terra firme, decepou-lhe o polegar transformando-o em nau tentando rumar a noroeste, Zakinthos, a ilha nascida da amputação, sempre recusando afastar-se da matriz peninsular.

Sem o saber, apesar de deus, Poseidon criou com o acto treslocado uma fraqueza fundamental dos helenos: a crueldade do senhor do mar tornou a mão inábil, fez-lhe perder flexibilidade, quedando-se os quatro dáctilos hirtos, só a telúria da terra agitando a espaços a sua sonolência, incapazes de se fecharem, de se unirem, os poderes instalados caindo um após outro numa sucessão cadenciada, previsível, inevitável de conflitos fratricidas e com inimigos de além-mar, o bronze, primeiro, o ferro, depois, dilacerando, desventrando, degolando, amputando, Bruegel recriado antes de ser.

Pélops, filho de Tântalo, o rei da Paphlagónia, deu o nome à mão. Milénios depois a cristianíssima Idade Média chamou-lhe Moreia, descobrindo na forma da terra semelhanças com a folha da amoreira, mas a devoção ecológica, ou apenas a obsessão pelo apagar da lenda, não tiveram êxito, a força do mito revelando-se mais poderosa.

Expulso pelos bárbaros da terra natal, o príncipe frígio sulcou o Egeu, um barco carregado de ouro em busca da Hippodameia, princesa da Arcádia, história de um amor difícil, berço da dinastia Atrida de trágicos destinos - os crimes hediondos de Ateu e de Tiestes, seu irmão; Clitemnestra, a infidelíssima esposa de Agamemnon, filho do primogénito de Pélops, comandante supremo das forças micénicas em Tróia, vasando-lhe a vida no regresso vitorioso ao seu palácio de Argos por haver sacrificado em Áulide a jovem filha de ambos, Ifigénia; Orestes vingando o pai, histórias sangrentas de horror e de caracteres que povoam o imaginário dos poetas dórios, fonte de reflexões para a educação do seu tempo: a ideia trágica de Homero de que as disputas entre os homens conduzem ao sofrimento, à morte e à desonra dos povos; o caos, para Ésquilo, como ponto de chegada de uma justiça retributiva, infligida por simples vingança; o pensamento de Sófocles sobre o sofrimento, o melhor caminho para a sabedoria, a recusa da cedência, entendida como grandeza da vontade que se opõe à injustiça, a força do homem residindo na união absoluta do coração e da inteligência.

A civilização micénica desapareceu abruptamente nos finais do séc. XII A.C., os seus principais centros destruídos, muitos deles pelo fogo. A lenda atribui o colapso aos descendentes de Héracles, na tentativa de voltarem à terra de onde os seus antepassados haviam sido expulsos por Eurystheus, rei de Micenas e o último governante da dinastia de Perseu, o mitológico fundador da cidade.

A expansão no Mediterrâneo central e oriental tinha feito afluir ao Peloponeso riquezas de um valor inimaginável, uma realidade que os achados arqueológicos nas acrópoles e no exterior das muralhas têm vindo a confirmar, em especial a riqueza da fábula de Micenas, a "cidade do ouro", como era conhecida na antiguidade, os Círculos A e B de sepulturas reais, dentro e fora da cidadela, contendo jóias de uma beleza única, designs de artistas que o ouro em bruto das conquistas criou. O ouro e a sua cobiça poderão Ter estado na origem da destruição dos jónios e dos aqueus.

Usar hoje uma jóia desenhada a partir de uma ideia de um artista micénico ou dório poderá significar trazer ao peito ou em volta do colo histórias de amor com mais de dois ou três mil anos - as de Helena, Menelau e Páris, Clitmnestra, Agamémnon e Egisto, Cassandra e Agamémnon... - histórias feitas de desencontros, tempo ensandecido pelo silêncio, de verões de inverno e de invernos de inferno, de dias sem sol e de noites sem sonho, a dor mais funda que a morte, e de reencontros, emoções sem controle, lava incandescente, os corpos fundindo-se num abraço louco e interminável, a minha poesia nasceu da tua boca. Como todas as histórias de amor. Como a tua e a minha.

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* Professor-coordenador da ESEV

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