RECENSÃO CRÍTICA

ANTÓNIO RODRIGUES-LOPES*

DUPONT, P.; OSSANDON, M. (1994) La pédagogie universitaire. Vol. De 12*18 cem e 128 páginas. Paris: PUF.

Uma obra de reflexão acessível constituía uma necessidade no panorama da nossa cultura pedagógica. A obra aqui em questão representa o remover dessa situação, sendo pena que a mesma não esteja já traduzida em português. De facto, muito se tem escrito também entre nós sobre a pedagogia, com incidência em tópicos diferenciados e incluindo os diversos níveis de ensino. Porém uma excepção, por vezes incompreensível, se tem verificado: a Pedagogia Universitária.

A Universidade, como instituição do ensino superior, sempre procurou adaptar-se às mudanças, respondendo aos apelos da própria evolução social. No entanto, situações houve em que esse esforço de adaptação não correspondeu às exigências coevas, tão fortes eram os laços com orientações e tradições seculares, quando não privilégios insustentáveis, numa visão institucional prospectiva.

.Vários países europeus foram bafejados por uma lufada de ar fresco, desde há umas décadas atrás, abrindo os horizontes do progresso e do desenvolvimento, com a consequente compreensão do novo papel e da nova filosofia necessários às instituições do ensino superior. A Comunidade Europeia é o universo cénico dessas novas representações protagonizadas pelos países que a constituem, numa perspectiva de abertura à Comunidade Internacional. Portugal e as suas universidades não podiam ficar de fora. As "novas" universidades e as "novas" instituições de Ensino Superior, de que são exemplo os Politécnicos, assim nasceram ao longo das duas últimas décadas, bafejadas pela referida lufada de ar fresco, criando alguma incomodidade pedagógica, que mais não foi do que um desafio a práticas instaladas. Neste contexto, estão lançados, também entre nós, os fundamentos e a consciência da necessidade de uma "outra" pedagogia para o ensino superior. A obra de Pol Dupont propõe-nos uma reflexão a que, mutatis mutandis, a realidade do ensino e da pedagogia portuguesa não é estranha.

Os três milhões e setecentos mil professores dos países da Comunidade Europeia estão todos cada vez mais próximos, no âmbito da Pedagogia, nas suas funções essenciais. O sub-universo do Ensino Superior Universitário superou os limites de uma tradição para se questionar sobre os novos caminhos, na senda de uma pedagogia universitária que passou pelas metamorfoses que Pol Dupont tão bem deixa assinaladas nesta sua obra. Na verdade, depois de traçarem um quadro evolutivo da Europa Universitária, nas suas transformações, nos seus indicadores de inserção e respectivos paradigmas, os autores debruçam-se sobre alguns dos factores de reabilitação de um novo quadro pedagógico, que responda aos desafios da sociedade e dos estudantes que, cada vez mais, demandam novos conhecimentos e novas práticas profissionais.

Novos problemas de administração e gestão se impõem, de modo que a mudança não se justifique a si mesma, mas constitua uma abertura constante à inovação, num esforço de equilíbrio entre o dinamismo e a ordem, a evolução e a identidade, a estabilidade e a mudança. A incidência pedagógica das questões aqui subjacentes levam os autores a apresentar alguns exemplos de instituições do Ensino Superior que, num esforço de adaptação," mudam realmente a sua maneira de funcionar " (p.74). Qualquer mudança exige de facto, uma reflexão sobre s parâmetros em que a mesma se deve desenvolver. Surge assim a questão da investigação, da transdisciplinaridade, da flexibilidade, das redes de comunicação, dos recursos humanos e, enfim, da necessidade da nova pedagogia que tenha em conta os valores universais, os desafios do interculturalismo, do sentido e da convivência.

A obra de Pol DUPONT e Marcel OSSANDON constitui um indicador reflexivo, circunstanciado e fundamentado desta vasta problemática tão pertinente e actual, se bem que seja omissa relativamente a uma síntese crítica de algumas experiências relevantes, entre outras, a portuguesa.

O Leitor - qualquer que seja a sua apreensão pedagógica, mesmo fora do Ensino Superior - pode encontrar nesta pequena obra de pouco mais de cem páginas, o testemunho da sua própria apreensão e as bases para alimentar a sua permanente reflexão, numa atitude crítica indispensável.

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*Prof. Coordenador da ESEV

SUMÁRIO