" OS MEUS LIVROS "

ANA MARIA MOURAZ *

 

 

 

Li o Estrangeiro quando tinha 15 anos. Aquela história de um homem (francês) que mata outro (um árabe), porque estava muito calor, perturbou-me. Claro que Camus é um francês nascido na Argélia e a história supõe um envolvimento político, que poderíamos transpor para uma qualquer situação xenófoba, tão comum actualmente. No entanto, não é isso que dá perenidade à história : antes a ideia que ser próximo ou estranho não são categorias substancialmente estanques, nem dependem apenas de uma filiação /pertença a um grupo de referência . É-se estranho /outro na nossa própria pele, quando as nossas acções não têm, para nós, sentido. É fácil deduzir o que pode acontecer numa sociedade onde este sintoma de alienação se vai subrepticiamente instalando: a breve trecho, os outros são mesmo o inferno, como diria Sartre.

Quando li o Estrangeiro descobri que a vida é feita de estranhas arquitecturas, cuja dimensão nem sempre temos capacidade para perceber, o que faz o seu charme e a nossa angústia. Descobri, também, que o preço da coerência é, no mínimo, uma dívida que se contrai para toda a vida e que é preciso estar constantemente a amortizar.

Não sei se o Estrangeiro é o livro que gostei mais : há tantos livros que eu gosto mais... Não sei mesmo se mudou a minha vida , mas às vezes gosto de supor que, por causa dele, cursei Filosofia. É que pensar, todos os dias da minha vida, pode ser uma empresa de Sísifo, mas não me parece ruim tarefa.

CAMUS, Albert.- O Estrangeiro. Pref. Jean Paul Sartre; Trad. António Quadros. Lisboa : Livros do Brasil,(s.d.) .

A aventura do saber e os seus meandros, são, no meu entender , o traço que liga as preocupações literárias, e as outras, de Umberto Eco. Aventura que sempre começa e passa por pistas, velhos manuscritos amarelos, quais mapas de tesouros, que o tempo e a ignorância tinham entretanto votado ao desinteresse.

Li recentemente A Ilha do dia antes, como tinha lido antes o Nome da Rosa e O pêndulo de Foucault, e pude constatar a semelhança referida.

No Nome da Rosa tudo gira à volta da existência de um livro , escrito por Aristóteles, que advogaria a natureza boa e o valor cognitivo do riso, que a Idade Média não podia suportar. A lei divina impunha-se através do medo do Inferno e o riso afastava esse medo. Se o Filósofo1 escrevera um livro sobre o riso2, elevava-o à condição de arte, de arma subtil do espírito livre - e isso era um perigo que vitimou 7 monges, mas poderia ter vitimado, no entender do Venerável Jorge, toda a Cristandade.

Em 1851 Léon Foucault demonstrava o movimento de rotação da Terra, utilizando para isso o seu famoso pêndulo, que hoje se pode observar no Museu das Artes e Ofícios em Paris, preso na cúpula da nave, daquela que foi outrora a Abadia de Saint-Martin-des-Champs dos Templários. É quanto basta para Umberto Eco se lançar na construção do que poderia ser o segredo dos Templários, paradigmatizado no Pêndulo. Que buscavam os Templários ? O saber absoluto, simbolicamente identificado ao ponto geométrico, sem dimensões, e por isso imóvel, no qual está preso o pêndulo; e a porta de acesso a esse saber, que é o conteúdo do Graal, que as sociedades secretas teimam em descobrir, para aceder à omnisciência.

Em a Ilha do dia antes, a pista é um conjunto de cartas, quase um diário, que o jovem Roberto de la Grive , náufrago nos mares do pacífico, escreve à sua amada, que, provavelmente nunca as leu. Embarcado numa nau com a suposta missão de espionar o que os ingleses sabiam acerca da longitude e das estratégias que usavam para a determinar, Roberto descobre a falibilidade e a tarefa imensa que é a dos homens: para descobrir o mundo, há que experimentar construí-lo, como fizera Deus3. Noutro registo, Roberto descobre a razão mais relevante por que é tão importante para o poder dominar o saber: é que saber também é poder. Desse modo a questão das longitudes deixa de ser um mero problema prático de navegação: é factor de domínio sobre os territórios descobertos e é, quiçá, a miragem de voltar atrás no tempo - se viajar no sentido da terra posso chegar ao dia antes e à Ilha de Salomão.

ECO, Umberto (1984).- O nome da rosa. Trad. port. de M Celeste Pinto. Lisboa : Círculo de Leitores.

ECO, Umberto (1990).- O Pêndulo de Foucault. Trad. port. de José Barreiros. Lisboa: Círculo de Leitores.

ECO, Umberto (1996).- A Ilha do Dia Antes. Trad. port. de José Barreiros. Lisboa: Círculo de Leitores.

* Equip. a Prof. Adjunta da ESEV

 

Notas:

1 Aristóteles é o filósofo da antiguidade grega que a Idade Média assimilou ao sistema cosmológico da Igreja. Daí a importância e o respeito como Autoridade que os livros de Aristóteles detiveram na Idade Média .

2 Aristóteles escreveu uma obra sobre a Poética, cujo primeiro volume versava a Tragédia e o segundo a Comédia. Este último nunca chegou até nós, ou porque nunca foi escrito, ou porque desapareceu no incêndio da Biblioteca de Alexandria

3 A tese implícita é a do mecanicismo que o mundo é uma máquina e o conhecimento verdadeiro é o conhecimento das leis que regem o seu funcionamento, tese que herdámos dos modernos.

 

SUMÁRIO