Escola Superior de Educação - XV ANIVERSÁRIO

MARIA FERNANDA GONÇALVES *

 

 

No dia 26 de Março de 1983, a Escola Superior de Educação de Viseu iniciou as suas actividades com a abertura dos primeiros cursos de formação para Educadores de Infância e Professores do Ensino Básico (que nessa altura tinha a duração de 6 anos) ministrados no âmbito do Ensino Superior Politécnico.

No dia 26 de Março de 1996 tomou posse o 1. Conselho Directivo eleito nesta Escola. Entrava-se definitiva e efectivamente na fase de administração autónoma e democrática, depois de terminado o período de instalação.

No dia 26 de Março de 1998, a Escola celebrou o seu 15. Aniversário, como instituição de formação, tendo agora um âmbito de actuação muito mais lato do que aquele com que começou.

Do plano anual de actividades do Conselho Pedagógico (constituído também em 1996) constava a organização de acções que, de uma maneira adequada, festejassem a referida data.

O Conselho Pedagógico considerou "adequado" promover essas acções tendo em vista três objectivos fundamentais;

    1. Estimular uma "cultura de Escola" participada, interactuante, reflexiva e dinâmica.
    2. Proporcionar aos nossos alunos actividades científicas e culturais enriquecedoras, para além daquelas que constituem o seu currículo formal, ou que a ele estão habitualmente associadas.
    3. Assinalar a presença da nossa Instituição na Comunidade de que faz parte. Este objectivo cumpre-se, muito em particular e ao longo de todo o ano, junto da comunidade escolar e dos seus intervenientes. Isso, porém, não esgota as formas como queremos "estar presentes", e como poderemos concretizar o nosso projecto institucional.

As actividades que seleccionámos para constituírem o programa de Aniversário reflectem, por certo, alguns constrangimentos e a força das circunstâncias que condicionam sempre os projectos idealizados. Cremos no entanto que não deixam de visar os objectivos pretendidos. A sua diversidade corresponde também à multiplicidade daqueles. Houve momentos que não ficaram registados no Programa oficial que aqui reproduzimos. Também eles se inserem nas intenções que presidiram a esta organização. Foram os momentos de simples e descontraído convívio à volta de uma mesa onde se come (e que na nossa cultura tem um sentido fortemente agregador e familiar). Num destes momentos teve lugar o acto simbólico de "cortar o bolo de anos", de distribuir a todos uma fatia dele, e de em conjunto "erguermos a nossa taça" aos ideais que nos unem na construção e na projecção da vida da Escola, independentemente do lugar, ou do papel, que nela desempenhamos. Connosco estiveram também muitos amigos. A todos agradecemos o modo e a autenticidade com que participaram nesta celebração.

Como a Revista Millenium e os seus responsáveis acolhem sempre generosamente as nossas iniciativas, para além do programa, inserimos aqui algumas notas sobre o que foi a sua realização.

A representação política-estatal

Embora com algum sacrifício pessoal, o Senhor Presidente da Assembleia da República, Dr. António Almeida Santos, deu-nos o prazer e a honra de participar na nossa Sessão Académica Comemorativa.

Tomámos a aceitação do convite como um sinal da atenção e do reconhecimento que o poder político instituído tem em relação ao trabalho que instituições como a nossa desenvolvem. Quisemos ver nela também um estímulo à promoção do esforço e da qualidade desse mesmo trabalho.

Mas o nosso convidado expôs, ele próprio, e melhor do que qualquer outra pessoa faria, os motivos que o fizeram vir à ESE de Viseu, num dia com agenda particularmente sobrecarregada.

Entre esses motivos salientou o "desejo de homenagear e valorizar o professor português, particularmente aquele que se encontra ligado aos níveis mais elementares do Sistema Educativo". Em terminologia ainda corrente poderíamos dizer "o professor primário" ou do ensino primário.

O orador evocou as ligações familiares ao mundo da educação escolar e, muito sentidamente, o que foi a acção da sua mãe, enquanto sua professora da instrução primária. Afirmou que a ela deve o domínio que hoje tem da Língua Portuguesa. Muitos dos presentes terão concordado com a força decisiva de uma boa iniciação, para a qualidade adquirida da escrita e da leitura.

Num retrato rápido e impressionista, Almeida Santos deu aos ouvintes a sua visão das vertiginosas mudanças que o Mundo tem sofrido nas últimas décadas, comparando a actualidade com o mundo da sua infância. Acentuou o salto fabuloso que se verificou ao nível das tecnologias, mas também em todos os outros aspectos da vida social, dos meios e da organização do viver colectivo e individual. Nunca se tinha visto "tamanho surto de mudanças, por unidade de tempo", sublinhou.

Mas desta constatação inferiu:

Alguns factos, e as suas possíveis consequências para a vida humana, foram apontados. O orador salientou de entre eles: a anulação das distâncias e do tempo; o desaparecimento do Estado-Nação, ou a construção de instâncias e poderes supranacionais, ou a dupla cidadania para os europeus; o fenómeno da mundialização que se concretiza em combates únicos e em políticas únicas; as implicações do crescimento demográfico; os problemas do esgotamento de recursos naturais e vitais.

As mudanças de ordem qualitativa que temos que operar são de tal monta que Almeida Santos não receou chamar-lhes revolução necessária e incitou os mais jovens a que se empenhassem neste combate que há-de salvar o Homem e o seu mundo mesmo que esse mundo venha a ser bastante diferente daquele que muitos agora conhecem e vivem.

Comentando a política educativa que rege o nosso Sistema de Educação, o autor recordou a sua sensação de "insuficiência" quando foi remodelada no Parlamento Português a Lei de Bases do Sistema Educativo. No entanto, manifestou também o seu regozijo por ter visto consagrada a "Carta Magna do Ensino ao Longo da Vida". Desse documento salientou a junção inseparável das noções e acções de instrução-educação-formação e também a ideia de educação permanente, ou de ensino ao longo da vida. Terminou o tempo em que, na idade dita escolar, a Escola preparava para a vida, e esta se realizava à saída daquela. Trabalho e aprendizagem interligam-se hoje nas diversas fases da vida humana e nunca nenhum saber está definitivamente adquirido.

Esta ideia levou o orador a reflectir, e a convidar os presentes a que reflectissem, sobre a influência que outros meios e organizações têm na formação humana, tanto nos aspectos positivos como negativos. Foi lembrada, em particular, a força da Televisão, considerada a "Universidade mais universal, mais atraente e mais barata" para os seus espectadores. Face a este fenómeno, foram invocadas as obrigações do Estado para o estabelecimento de autênticos "pactos de serviço público" para que a lógica de mercado não subverta em absoluto a lógica da formação.

Após estas reflexões, o Sr. Presidente da Assembleia da República destacou o papel das escolas de formação de professores, e o valor do "ensinar a ensinar", para o investimento que é necessário fazer no mundo da educação e que está muito para além de modificações pontuais.

Foi com um apelo a este combate e com o envolvimento de todos num abraço esperançado que o orador se despediu, crente de que "é preciso salvar o Homem enquanto é tempo".

O Conferencista Convidado

Com a intenção de interligar as preocupações do futuro, e a formação para um "mundo outro", com as nossas raízes culturais nacionais, e participar neste presente de encruzilhadas com posições esclarecidas e fundamentadas, convidámos para uma intervenção científica o Comissário-Geral para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, o Sr. Professor Doutor António Manuel Hespanha. Numa palestra rica no seu conteúdo e muito atraente na forma, o nosso convidado falou sobre o "orientalismo português nos séculos XVI a XX".

Dessa intervenção apresentamos apenas as linhas gerais, uma vez que esperamos vir a publicar na íntegra o discurso que o orador proferiu sem recurso a qualquer texto escrito.

Tópicos abordados:

    1. O carácter mítico do Oriente nas lendas, na tradição cultural e na doutrina cristã. A forte atracção que algumas dessas regiões exerceram sobre gerações jovens do nosso tempo.
    2. Como contribuiu Portugal para a construção desse imaginário e como se reflecte ele na cultura portuguesa?
    1. Aspectos específicos do orientalismo no século XVI.
    1. Lisboa como entreposto e intermediário de terras prestigiadas.
    1. Aspectos paradoxais no orientalismo dos séculos XVII e XVIII.
    1. Aspectos característicos do século XIX.
    1. O Oriente no simbolismo dos finais do século.
    1. Os ingleses como fautores do orientalismo moderno na Europa.
    1. A pressão para a ocupação efectiva em finais do século XIX.
    1. Ambiguidades da política oriental e colonial durante o Estado Novo.
    1. Orientalismo e situação actual.
    1. Acção da "Comissão dos Descobrimentos".

Outros momentos festivos

Um grupo de alunos da ESEV decidiu concretizar "a nossa aliança com o Oriente" numa manifestação gastronómica. Durante a tarde preparam comida indiana e coreana que ao fim do dia serviram aos convidados presentes.

Por esta e por outras maneiras, os alunos estiveram presentes, embora em alguns momentos pontuais o número dessas presenças tenha sido reduzido.

Queremos lembrar aqui o trabalho desenvolvido pelos alunos dos Curso de Português/Francês e de Matemática/Ciências da Natureza que o tempo escasso de apresentação e de exposição pública não permitiu que fossem devidamente apreciados.

Este será um dos aspectos estratégicos a repensar em Acções futuras.

Mas dos momentos altos e muito significativos, queremos ainda salientar outros dois:

Grupo Coral da Universidade Aberta

A Escola Superior de Educação tem protocolos de colaboração institucional com a Universidade Aberta que se concretizam em diversas medidas, entre elas, o apoio pessoal e directo aos estudantes daquela Universidade que pertencem à zona geográfica de influência da ESEV. Foi na sequência desses intercâmbios que surgiu o nosso convite, e a cativante amabilidade da U.A., de fazer participar no nosso programa de Aniversário o Coro AD ASTRA que é formado, essencialmente, por funcionários e professores daquela Instituição. O Grupo actuou durante a Sessão Académica, como estava previsto, mas também noutros momentos informais que tornaram muito calorosa, e tanto humana como artisticamente, rica esta recepção e convívio. Foram momentos inesquecíveis.

 

O Teatro em véspera do seu dia mundial

A nossa jornada festiva terminou com duas acções teatrais realizadas "no coração da cidade". O Grupo MNT da Universidade Nova, que foi nosso convidado, fez acontecer teatro na praça central de Viseu e nas ruas que a envolvem. De uma forma curiosa, retomando aspectos de teatro ambulante e de animação de rua, o Grupo fez desenrolar sob os nossos olhos "a mais louca corrida do mundo". Conseguimos ver representados quadros da história do nosso processo de hominização, interligados com cenas, dados culturais e problemas da actualidade.

Peregrinando pelas ruas da zona mais comercial da cidade, e fazendo entrar nesta "onda" todos os que se encontravam pelo caminho presenciámos, em pontos vários, quadros vivos e "encenações" que entre o cómico e o intensamente dramático nos punham ao alcance dos sentidos, e dos sentimentos, problemas e realidades de hoje e de sempre da guerra e do amor, da fome e da abundância, das opções pessoais e dos dramas sociais.

Neste deambular fomos conduzidos a um espaço formal de espectáculo o Auditório Mirita Casimiro. Simbolicamente, podia ser o teatro a oferecer-se como espaço de reflexão e catarse. O Auditório foi muito pequeno para a avalanche de pessoas que se integraram naquela "peregrinação". Grande número delas não conseguiu entrar. O seu encontro com o Teatro da Academia, que ia actuar, ficou adiado para o dia seguinte. Para todos os que tiveram acesso àquele espaço o TA apresentou uma recriação da peça com que o grupo iniciou as suas actividades e que, desta vez, intitulou "Uma cadeira não é uma brincadeira". Brincando muito, participando animadamente no espectáculo que extravasava do palco e envolvia a assistência, concluímos que, de facto, aquele jogo de aparências tornava bem reais situações que não são mesmo mera brincadeira.

Jorge Fraga, responsável por este grupo que integra elementos das diversas escolas do Politécnico de Viseu, encerrou as actividades do dia, convidando todos a celebrar entusiasticamente o Dia do Teatro que estava a começar (27 de Abril).

Para alguns o convívio continuou; muitos outros passaram a preparar-se para o trabalho do dia seguinte que na Escola continuaria. Falando com alguns, numa forma simples e afectuosamente irónica, pudemos dizer: "Foi uma linda festa!".

SUMÁRIO