A CULTURA TRADICIONAL DA BEIRA EM DEBATE

 

Pelo sexto ano consecutivo a cidade de Viseu vai ser palco de uma iniciativa com a designação de Encontro de Cultura Tradicional da Beira, que visa debater as nossas tradições.

Inicialmente pensado para homenagear os Ranchos Folclóricos de Torredeita e Passos de Silgueiros que então comemoravam 30 e 15 anos de actividade respectivamente, o Encontro de Cultura Tradicional da Beira rapidamente conquistou adeptos por toda a região beirã e não só, levando a que ciclicamente, em Novembro de cada ano se faça uma "romaria" até Viseu para ouvir, intervir, e aprofundar investigações de eméritos estudiosos que compartilham o seu saber nos campos da Etnologia e História local.

Os Encontros estruturam-se em Módulos e Conferências, havendo no primeiro caso lugar a debate com os participantes.

Este ano os Módulos em discussão versam "O Ciclo do pão: do cereal à mesa" e "As Romarias da Beira". Nas Conferências os temas a abordar são: "Os Judeus na Região de Viseu", "As Misericórdias na Sociedade Beirã" e "A Pedra de Villa Nova ou a saga de uma mulher beirã".

No tratamento do Ciclo do pão espera-se conhecer melhor os diversos processos que conduzem o cereal à mesa daquele que é o alimento mais universalizado. Da sementeira à colheita, da moagem ao forno serão certamente os circuitos que as intervenções seguirão para ilustrar a "viagem do pão" até à mesa de todos nós.

Dos muitos fabricos regionais de pão em que a região da Beira é pródiga, destaque para a excelente "brôa de Vildemoinhos" e para o "pão alvo da Lapa".

E já que falamos na Lapa não podemos deixar de fazer referência à celebração dos 500 anos da fundação daquele Santuário Mariano de grande expressão nacional até ao século passado.

Foi no Colégio Jesuíta que Aquilino Ribeiro estudou as primeiras letras e acabou por recolher elementos que imortalizaram na sua obra literária a romaria da StĒ. da Lapa.

No âmbito das Romarias Tradicionais da Beira haverá também espaço para salientar a importância da Lapa no contexto regional enquanto pólo aglutinador da religiosidade popular beirã, conforme nos irá relatar o Pe. Cândido de Azevedo, Pároco de Sernancelhe.

"Os Judeus na região de Viseu" depois de ser título de livro levará a sua autora, a DrĒ. Isabel Monteiro a dissertar sobre este assunto trazendo certamente novos elementos sobre esse povo martirizado que um certo "farisaísmo" cristão levou à marginalização. Hoje não basta apenas pedir desculpa por actos irreflectidos cometidos no passado; há que conhecer a realidade então vivida para melhor ajuizar tão despóticos procedimentos. Apesar de tudo Viseu até foi terra de acolhimento.

Mas este é também o ano em que se comemora o meio milénio da fundação das Misericórdias Portuguesas e por isso importa conhecer qual o papel destas instituições seculares na sociedade beirã. Tendo por base a realidade da StĒ. Casa da Misericórdia de Aveiro, o Dr. Manuel Barreira irá falar-nos dessas instituições de fieis cristãos que se dedicam à caridade tendo como exemplo a Rainha D. Leonor que foi bisneta de D. João I e neta de D. Duarte, o monarca viseense.

Ainda sobre a região de Viseu nos irá falar a DrĒ. Olinda Beja, autora do romance "A Pedra de Villa Nova", que retrata a saga de uma mulher beirã que viveu na Quinta de Villa Nova, Povolide. Esta história com contornos verídicos poderá vir a ser passada a cinema impondo-se que no entanto tais filmagens decorram na área de Viseu e dentro do possível com gente viseense. Será este um momento reivindicativo perante o centralismo lisboeta.

A tradicional animação que a música e a dança populares sempre trazem ficará este ano a cargo do Rancho Folclórico de Vila Cova a Coelheira, terra de refúgio de Judeus e que ainda hoje reflecte alguns laivos da cultura hebraica.

E como nem só de cultura empírica e livresca se vive, o tradicional almoço beirão irá alegrar os nossos estômagos para que não se desminta a máxima aquilineana de que "festa sem comedoria é como gaita que não assobia".

Um momento alto deste Encontro será a Homenagem pública que será prestada a Miguel Esteves de Almeida, Director da Federação do Folclore Português.

O Magusto culminará os trabalhos do Encontro que decorrerá a 14 de Novembro, no Campus Politécnico de Viseu, em Repeses, no Auditório da Escola Superior de Tecnologia, espaço recentemente inaugurado e que mostra toda a pujança do Instituto Superior Politécnico de Viseu a quem devemos manifestar os mais vivos agradecimentos pelo apoio empenhado que vem dando a esta actividade. E, desde já manifestamos o nosso desejo de ver aumentar o número de estudantes desta instituição que participou nesta iniciativa, para bem da cultura tradicional que, assim, assegurará a continuidade das investigações em curso.

Realizar estes Encontros de Cultura Tradicional da Beira é trabalhar em prol da verdadeira regionalização embuida dos valores autênticos do povo da Beira que, quer se queira quer não, são diferentes dos transmontanos, dos minhotos, dos ribatejanos, dos algarvios, dos tripeiros, dos alfacinhas e outros mais, sem deixarem de ser portugueses de gema e europeu convictos.

Júlio Cruz

(Secretário-Geral de Avis)

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