Formação de Professores do 1º. C.E.B.

Algumas considerações a propósito do

Encontro "Matemática no 1º. Ciclo"

LUÍS MENEZES *

 

A necessidade de formação contínua resulta de os conhecimentos e competências adquiridos pelos professores antes e durante a formação inicial se tornarem insuficientes para o exercício das suas funções ao longo de toda a sua carreira. Este problema coloca-se com cada vez mais acuidade neste final de século e atravessa as mais diversas profissões. Os professores, na sua generalidade, e os do primeiro ciclo do ensino básico, em particular, testemunham a evolução inebriante da sociedade do fim do segundo milénio. Esta sociedade coloca-nos questões cada vez mais complexas que solicitam respostas convenientemente fundamentadas. Como preparar os professores para este embate?

A resposta a esta questão é: FORMAÇÃO.

A necessidade de dar formação aos professores, muitas vezes designada de contínua, por oposição à inicial, é repetida vezes sem conta pelos responsáveis pela educação, pelas instituições de formação e pelos próprios professores. A concepção de formação tem sofrido algumas alterações ao longo do tempo. Alguns autores preferem falar de desenvolvimento profissional do professor em vez de formação. Neste sentido J. Pedro Ponte (1996) sustenta que a noção de desenvolvimento profissional é uma noção próxima da noção de formação, embora não equivalente. De forma a concretizar o novo conceito, o mesmo autor resume assim as principais diferenças: (1) a formação tem subjacente uma lógica "escolar" enquanto o desenvolvimento profissional se processa através de múltiplas formas e processos (pode incluir a frequência de cursos mas também outras actividades como projectos, trocas de experiências, leituras, reflexões); (2) na formação o movimento é essencialmente de fora para dentro (o formando é submetido a um programa de formação previamente construído) enquanto que com o desenvolvimento profissional o processo corresponde a um movimento de dentro para fora (o professor, nesta perspectiva, é preponderantemente, sujeito de formação em vez de objecto de formação); (3) a formação é construída tendo como pressuposto a carência do professor numa certa área do saber; no desenvolvimento profissional parte-se do professor, das suas experiências, dos seus saberes, para os desenvolver; (4) a formação tende a ser vista de modo compartimentado, por assuntos, enquanto que no desenvolvimento profissional se parte da pessoa do professor como um todo (embora se podendo focar a atenção na análise de temas específicos); (5) a formação parte predominantemente da teoria e muitas vezes (talvez na maior parte) não chega a sair da teoria; a desenvolvimento profissional tanto pode partir da teoria como da prática; e, em qualquer caso, tende a considerar a teoria e a prática duma forma interligada.

Para Ponte (1996), "a introdução deste conceito representa uma nova perspectiva de olhar os professores. Ao se valorizar o seu desenvolvimento profissional, eles deixam de ser vistos como meros receptáculos de formação passando, pelo contrário, a ser tidos como profissionais autónomos e responsáveis com múltiplas facetas e potencialidades próprias" (p.195).

Foi nesta perspectiva que a Associação de Professores de Matemática, em colaboração com a Escola Superior de Educação de Viseu, arquitectou o 2º. Encontro Nacional de Professores do 1º. Ciclo - Matemática no 1º. Ciclo. Este encontro contou com três tipos de sessões: conferências plenárias (que abriram as duas manhãs do encontro), seguidas de temas de discussão e sessões práticas. Em todas elas participaram activamente profissionais do 1º. Ciclo do Ensino Básico. Grande parte dos Temas de discussão e das Sessões Práticas contaram com a presença de professores do 1º. ciclo, apresentando experiências de sala de aula, explorando materiais e reflectindo sobre as suas práticas, ou seja, este 2º. Encontro Nacional de Professores do 1º. Ciclo - "Matemática no 1º. Ciclo" nasceu do querer destes profissionais. A valorização do professor e das suas práticas e o sublinhar da reflexão como condição necessária para a acção, foram dois vectores fundamentais deste encontro de professores que tiveram como plano comum a Matemática.

Em termos de avaliação final deste encontro, é de sublinhar o entusiasmo que a maioria dos participantes demonstraram ao longo dos dois dias. Este grande envolvimento dos professores vai de encontro à ideia de desenvolvimento profissional que se apresentou inicialmente.

O ASSUMIR DA FORMAÇÃO COMO UM PROJECTO PESSOAL EM PERMANENTE AJUSTAMENTO FOI ASSIM O ELEMENTO MAIS MARCANTE DESTA REUNIÃO.

Referências

Ponte, J. (1996). Perspectivas de desenvolvimento profissional do professor de Matemática. In J. Ponte, C. Monteiro, M. Maia, L. Serrazina e C. Loureiro (Eds.), Desenvolvimento Profissional dos Professores de Matemática. Que formação? (pp.193-211). Lisboa: Secção de Educação e Matemática da SPCE.

¾ ¾

* Professor-adjunto da ESEV.

SUMÁRIO