MILLENIUM n. 2 - Abril de 1996

 

VIDA ACADÉMICA

 

DISCURSO DO PRESIDENTE DO ISPV NA TOMADA DE POSSE DO PRIMEIRO CONSELHO DIRECTIVO DA ESEV

 

 

 

Passam precisamente, hoje, treze anos sobre o glorioso dia 26 de Março de 1983, dia em que a 1. Escola Superior de Educação, a de Viseu, abriu as suas portas à comunidade com 47 alunos e 7 professores tendo a sua 1. Comissão Instaladora sido nomeada pelo Despacho 411/80, de 24 de Novembro.

 

Tarefa muito complicada a da sua abertura, cuja História ainda não foi dada a conhecer publicamente por entendermos que não houve um afastamento temporal suficiente para poder ser devidamente contada.

 

Treze anos! Tão pouco tempo para o muito que já se conseguiu realizar.

 

Mas se o significado dessa evolução é relevante, e é-o efectivamente, mais relevante considero, 13 anos após a sua abertura, a posse da 1. Direcção democraticamente eleita.

 

E, a propósito da referência à democracia, vale a pena lembrar que, nos últimos 6 meses, vários actos de profundo sentido democrático aconteceram no nosso Instituto.

 

Inicialmente foi a eleição do 1. Presidente do ISPV; depois a eleição e posse da direcção da Escola Superior de Tecnologia, a que se seguiu a eleição, pela primeira vez, de um, professor da casa para Presidente do Conselho Científico da E.S.T. e a que se seguirá, naturalmente, a eleição do Presidente do Conselho Cientifico da nossa Escola Superior de Educação.

 

Apenas a Escola Superior Agrária terá que aguardar algum tempo mais para atingir a maioridade democrática. Também chegará a sua vez.

 

Convém ainda relembrar que o nosso Instituto Politécnico foi o segundo a trilhar os difíceis caminhos da democracia representativa serenando os ânimos dos mais exaltados democratas da nossa comunidade que exigiam mais celeridade no processo autonômico.

 

Treze anos passaram já!

 

Anos de trabalho muito intenso e complexo já que tivemos que saber juntar, em doses

certas, a formação académica do corpo docente, a renovação e construção de

instalações com a dignidade que se exige para albergar um ensino superior de

qualidade, e ainda propor a criação de novos cursos em função das necessidades da

região e dos jovens a quem víamos, com mágoa, partir semanalmente à procura da

formação desejada em outras regiões mais afortunadas.

 

Mas também não podemos escamotear que foram anos de alguma tensão com a comunidade que, não conhecendo as nossas realidades e os nossos problemas internos, se movimentavam e reagiam em função de motivações muitas vezes incorrectas, pouco claras e, em muitos casos, ao sabor de motivações inoportunas para a serenidade exigida ao normal funcionamento da Escola Superior de Educação.

 

Devo aproveitar esta oportunidade para esclarecer que, contrariamente - ao . que muitos pensavam ou pensam, nunca nos preocuparam em demasia as más consciências e a boa ignorância porque sempre foi nosso convencimento que "o que torna o homem ignorante não é o que não sabe mas sim aquilo que não sabe que desconhece ".

 

Mas permitam-me confessar-vos, com alguma imodéstia, que sempre estivemos convencidos de que estávamos a colaborar na construção do futuro e a contribuir para gerar o progresso e o desenvolvimento numa região que dele precisa como do pão para a boca. E que, de igual modo, desde muito cedo tomámos consciência de que, enquanto uns cantavam como a cigarra nós, nós todos, na nossa Escola, trabalhávamos e amealhávamos como à formiga, com singeleza, mas com os olhos postos no amanhã de forma a evitarmos ter, alguma vez, necessidade de recorrer a terceiros para nos aguentarmos e não temermos o mar encapelado da competição, Não orgulhosamente sós. Mas orgulhosamente compenetrados de que havia de chegar o dia em que, quase sempre sós, haveríamos de ter capacidade de fazer a nossa afirmação junto das outras Instituições congéneres.

 

Saber ter memória nos momentos oportunos constitui, não raras vezes, uma evidente prova da afirmação da personalidade. Sempre estivemos convencidos, ao longo destes treze anos, de que, como bem referiu Schumacker: "Ou nos salvávamos nós ou ninguém nos salvaria". Continuamos a pensar exactamente da mesma maneira.

 

Ao mesmo tempo que cumprimento, muito sentidamente, a nova direcção que hoje toma posse penso ter alguma legitimidade institucional e democrática para lhes fazer uma singela exortação.

 

Que orientem a vossa acção directiva, o vosso saber e a vossa capacidade no sentido de continuarem a luta, sem tréguas, sem desfalecimentos, sem temores, sem receios pelo aumento de qualidade e conhecimento dos futuros professores que daqui haverão de sair.

 

É que, como todos de vós, também nós bem sabemos que a grande ameaça para o progresso não é a ignorância mas a ilusão do conhecimento.

 

Acreditem que nunca tememos os ignorantes mas sempre receámos e continuai-nos a recear os que têm, apenas, a ilusão do conhecimento.

 

Hoje dia 26 de Março, vivemos mais um significativo dia de festa.

 

Hoje são chamados a dar um passo em frente, no cumprimento de um dever, alguns dos que nos acompanharam nesta exaltante missão de continuar a lutar pela elevação do conhecimento nesta região do País porque sabemos que esse conhecimento é ainda a moeda internacional mais valiosa e a melhor arma para sermos verdadeiramente livres. Outros serão escolhidos certamente para outras tarefas igualmente nobres.

 

Só assim, em comunhão de objectivos, poderemos construir algo de realmente útil para a comunidade.

 

Estamos no limiar de um novo século. Os tempos, à dimensão do mundo, são de mudança. Como bem referiu Karl Popper em "0 Futuro Está Aberto". Temos de estar preparados para os desafios que as mudanças nos irão colocar e que o futuro nos exige.

 

O que até hoje fizemos foi uma ínfima parte do muito que há ainda para realizar, Certamente não fizemos tão bem como devíamos. Outros, porventura, fariam mais e melhor. Acreditamos.

 

Mas do que não temos nenhuma dúvida é que o que realizámos, minhas senhoras e meus senhores, realizámo-lo com muito amor, com muita vontade de acertar, sem condicionamentos políticos / partidários e sempre com os olhos postos nos alunos, na região, no País, e no futuro.

 

Exorto todos quantos aqui trabalham a assumir esta consciência na dimensão defendida por John Milton em "Paraíso Perdido": "Ó consciência, para que abismos de medos e horrores me tens arrastado, para os quais não encontro saída, porque cada vez mais mergulho mais fundo ".

 

Saber se o que temos feito terá sido o melhor e se terá sido orientado no melhor sentido tem realmente sido uma das nossas grandes preocupações.

 

O que nos vai valendo é que nos momentos mais dedicados a esta atmosfera introspectiva me vou reconfortando com as palavras de Pascal incertas na obra de Daniel J. Boorstin: Se o nariz de Cleopatra tivesse sido mais pequeno o Mundo teria sido, porventura, completamente diferente.

João Pedro de Barros

SUMÁRIO