Ainda a Semana Cultural da ESEV

Estas notas serviram de apresentação à conferência Identidades linguísticas, identidades culturais e escola, proferida em 21 de Março de 1997, pela Prof. Doutora Maria Lúcia Lepecki, no âmbito da Semana Cultural da ESEV.

 

Isabel Aires de Matos *

Embora a escolha da conferência Identidades linguísticas, identidades culturais e escola tenha sido da responsabilidade da nossa convidada, a temática proposta vem ao encontro de algumas das nossas preocupações, enquanto instituição de formação de professores.

Falar de identidades linguísticas e culturais num país como o nosso, parece ser tarefa fácil. Somos, nas palavras de Eduardo Lourenço, "um povo sem problemas de identificação étnica e histórica, mas - acrescenta - perturbado em profundidade pela questão da sua identidade ()".

A língua é, indiscutivelmente, um dos pilares em que assenta a nossa identidade como povo. Para tal, muito terá contribuído a extraordinária homogeneidade linguística do português, sublinhada pela dialectologia, que reconhece o mirandês como única minoria linguística de localização e implantação histórica em Portugal. Esta função identitária da língua é superiormente traduzida por Fernando Pessoa ao afirmar: "Minha pátria é a língua portuguesa".

No entanto, mesmo para um não-especialista, é evidente a variação que a língua revela ao ser adoptada pelos diferentes estratos sociais, etários ou profissionais. Todos nós, enquanto falantes, somos sensíveis à variação que realizamos, por exemplo, ao mudar de interlocutor, de assunto, ou de situação de comunicação.

Nem todos convivem no quotidiano, nem praticam na família e no meio social os registos nobres da língua; mas contactam com outro tipo de variedades, que dominam perfeitamente.

O facto de os locutores se encontrarem expostos a diferentes sociolectos contribui para marcar, nomeadamente, a língua que as crianças trazem para a escola.

Numa época em que esta deixou de ser exclusivo de uma elite e em que o ensino se democratizou, fácil é perceber a grande diversidade de registos e de variedades linguísticas que os alunos trazem para a sala de aula.

Esta não é, no entanto, para a escola actual, a situação mais problemática. De facto, assistimos nas últimas décadas a alterações profundas na sociedade portuguesa, que se reflectem, obviamente, na escola.

Um inquérito recentemente realizado em escolas do 1 ciclo do ensino básico revela que 1/5 das crianças da área metropolitana de Lisboa é de origem estrangeira e não tem o português como língua materna.

Os alunos africanos provenientes dos PALOP constituem um caso específico dentro das minorias étnicas. É conveniente, em primeiro lugar, desmistificar a ideia da Lusofonia, reforçada com a recente criação da Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Dos 200 milhões de falantes (número geralmente avançado para a Lusofonia) nem todos falam efectivamente português. Um número significativamente inferior terá o português como língua materna, enquanto uma percentagem importante apenas a utiliza como segunda, ou terceira língua.

É desta constatação, partindo da situação de plurilinguismo dos países africanos, tendo em consideração as alterações ao nível linguístico, social e cultural, aquando da sua instalação entre nós, que podemos perspectivar a situação dos alunos pertencentes a comunidades africanas provenientes dos PALOP.

Também a situação de retorno de luso-descendentes da diáspora portuguesa conta números significativos. Estes alunos representavam já 8% da população escolar portuguesa em meados dos anos 80, nos ensinos básico e secundário. Em amostra recentemente recolhida nesta escola, a percentagem oscila entre os 8% e os 40% nas variantes de línguas.

Muitos destes alunos viveram em situação de bilinguismo, onde o português, frequentemente, apenas cumpria a função de língua de comunicação intra-familiar. Também neste caso, é necessário partir da situação sociolinguística em que viveram no estrangeiro e das condições de inserção na sociedade portuguesa, para poder perspectivar a sua integração na escola.

Finalmente, cumpre-nos referir a presença de uma comunidade cigana, que não obstante viver entre nós há séculos, só aparentemente agora foi descoberta como fenómeno mediático. Esta minoria étnica possui uma língua e uma cultura próprias e, mesmo sofrendo uma forte influência do português devido à situação de contacto, não se deixa facilmente assimilar.

Concluindo, apesar da sua grande homogeneidade, o português não deixa de apresentar uma importante diversidade; actualmente, convivem ao lado da maioria algumas minorias significativamente relevantes - minorias essas que possuem línguas e culturas próprias, que a sociedade e a escola devem aprender a respeitar e - porque não - a preservar.

É, pois, com grande interesse e a maior actualidade no plano social e no plano educativo, que iremos ouvir a nossa convidada abordar o tema Identidades linguísticas, identidades culturais e escola.

 

* Professora-Adjunta da ESEV

SUMÁRIO