O DISCURSO DO PRESIDENTE DO ISPV

 

Por imperativo estatutário, o dia 5 de Novembro é considerado o dia do Instituto Superior Politécnico de Viseu.

Serve esta data para anualmente se comemorar a sua existência, e bem assim a sua progressiva caminhada em direcção à afirmação pedagógica, à projecção científica e ao desenvolvimento patrimonial.

De forma a atingir tais objectivos, a data é aproveitada para colocar ao serviço da comunidade e dos alunos novos espaços físicos, para a atribuição de símbolos académicos aos docentes que obtêm novas graduações, para a entrega de diplomas aos alunos que terminaram as respectivas licenciaturas no ano lectivo anterior, para referir as melhorias da organização pedagógica e para distinguir o trabalho dos que exercem funções no Instituto Politécnico ou no universo das suas unidades orgânicas integradas.

De igual modo se aproveita a data para se fazer o discurso sobre o estado da Instituição definindo, para o efeito, uma ou várias áreas como motivação integradora da cerimónia. Por vezes a escolha torna-se difícil pela necessidade de fazer opções.

Este ano a opção foi simples e a motivação mais que justa: o lançamento autorizado da tese de mestrado do nosso colega Manuel Albuquerque que tão cedo da nossa convivência se afastou, proposta apresentada pelo departamento cultural da responsabilidade do Vice Presidente do Instituto Doutor Vasco Cunha.

Ao lembrar Manuel Albuquerque e o tempo pretérito que juntos consumimos na ilusão da perenidade vivêncial, ilusão apodrecida, as lágrimas teimosamente se anunciavam através da neblina que me não deixava ver o que dificilmente ia escrevendo. É que o Manuel Albuquerque continua muito vivo no meu consciente sem jamais ter ousado ultrapassar as barreiras delidas do meu subconsciente. Estou a vê-lo no seu quarto vizinho do meu, na Universidade de Boston, sentado na mesa de trabalho com aquele ar de menino pequenino e sorriso pendurado na ponta dos óculos a queixar-se que tinha estado a escrever toda a noite.Trabalho penoso para quem tinha que estar presente nas aulas às 9horas da manhã. É que nós tínhamos responsabilidade de aulas a alunos americanos, seminários diários, cadeiras curriculares e investigação científica conducente à elaboração da respectiva Tese.

Por isso o Manuel estava cansado!

E nasceu aí a minha amizade com o Albuquerque, a que juntei mais tarde o respeito pela forma como observava a vida interna da Instituição e pela maneira gentil e construtiva como me fazia as suas críticas.

Exerceu em permanência as suas funções docentes no Pólo de Lamego, o que sempre representou um enorme descanso para quem tinha a responsabilidade da sua gestão pelo conhecimento que possuíamos das suas qualidades. Foi um dos grandes bastiões daquela unidade de formação sem precisar de outros arrimos e de outros protagonismos que não fossem os do bom senso, da sua inteligência e da enorme capacidade de se tornar necessário.

O Manuel Albuquerque, na sua passagem fugaz pela vida, interpretou como ninguém o difícil papel de colega responsável, definiu o perfil ideal do amigo que todos desejaríamos possuir, irradiando sinceridade, lealdade e firmeza de carácter, atributos que a actual axiologia bem considera mas que nós entendemos em vias de extinção.

Fernando Pessoa ,numa das suas divagações existenciais, escreveu que "só se ama quem está vivo". Sem pôr em causa a lógica da sua reflexão permito-me, todavia, acrescentar que só se recorda quem continua vivo dentro de nós.

E o Doutor Manuel Albuquerque ,contrariando a inexorável lei da morte, aqui está bem vivo porque está a ser recordado por todos nós.

SUMÁRIO