A INTERVENÇÃO DA PROFESSORA-DOUTORA MARIA JOSÉ SÁ CORREIA

 

MANUEL DE ALBUQUERQUE E O PODER DA REFLEXÃO E RECONSTRUÇÃO RACIONAL

 

O Instituto Superior Politécnico de Viseu decidiu, e em boa hora, comemorar o seu Dia com o lançamento da obra, a título póstumo, do Mestre Manuel Albuquerque, aliás professor que foi desta Instituição e muito considerado pelos seus pares e alunos.

A obra agora publicada é a versão integral da sua Tese de Mestrado, apresentada na Universidade de Boston em 1984-85. Como tópico central, a "Revisão do Programa de Inglês para os dois primeiros anos do Ensino Secundário", hoje 7º e 8º Anos do Ensino Básico (3º Ciclo). Se mais razões não houvesse, só esta ("dois primeiros anos do Ensino Secundário") serviria para que pudéssemos e devêssemos afirmar que a obra é perfeitamente datada no tempo. Mas, embora datada no tempo, necessária, uma pedrada no charco da estagnação das ideias sobre reformas programáticas do Inglês como Língua Estrangeira. É que o Programa analisado por Albuquerque estava em vigor desde 1982/83, numa versão idêntica ao do Programa que pretendia rever e melhorar, o de 1979. Essa revisão limitou-se às linhas da "Introdução", e pouco mais, especificando ser o programa aplicável também aos Cursos Nocturnos. Esta razão e outras, ligadas ao rigor da terminologia aplicada em documentos que deram origem ao Programa revisto (1982/83), levaram a que Manuel Albuquerque abraçasse com rigor científico e paixão profissional um assunto que requer, só por si, um empenho numa análise crítico-construtiva do programa de Inglês, promotora da mudança educacional.

Entendeu, e no nosso entender muito bem, que uma análise deste tipo não pode, nem deve, estar subordinada a pressões políticas, económicas ou institucionais. Por isso, cuidou de descrever em pormenor o Programa existente a nível dos "Objectivos Comportamentais", "Conteúdos", "Estruturas e Categorias Gramaticais", "Formas Acentuadas ou não", "Listagem do Vocabulário Essencial" para uso efectivo da Língua, "Bibliografia". Mas a descrição só por si é limitativa. Daí o recurso à crítica construtiva, começando por desmontar todo o discurso do próprio Programa. Para essa desmontagem foi à procura das características essenciais do Programa, nomeadamente: gradação dos items, abordagem metodológica proposta, semelhanças com os documentos-base que lhe deram origem e que são várias vezes citadas no Programa- "Waystage" e "Threshold Level".

Não receia afirmar que os Objectivos do Programa de Inglês I são muito semelhantes às actividades linguísticas mencionadas em " Threshold Level" (Van EK and Alexander, 1980: 24-25) e que o que o Programa chama "Funções da Linguagem" são especificações de comportamento (Van EK and Alexander, 1980:29) ou comportamentos com ligação ao tópico em causa (Van EK, 1977:27), sendo apenas os exemplos fornecidos aqueles que se ligam directamente ao comportamento linguístico (Van EK and Alexander, 1980:29). Sendo assim, apenas estes exemplos estão de acordo com as sugestões do Conselho da Europa.

Estes e outros aspectos, do que hoje apelidamos de "pensamento crítico-construtivo", exigem coragem e saber Teórico-Prático fundamentado. A repressão (mesmo do saber) é a verdadeira "raison d'être" do pensamento reflexivo, crítico. Se quisermos entrar nos "pós-modernistas" poderemos afirmar que Jürgen Habermas é para os interessados na linguagem leitura obrigatória (vidé, por exemplo, Knowledge and Human Interests 1968). Verificaremos que este Homem de Letras e Filósofo alemão, dentro de uma convicção "socrática", preocupava-se em analisar três domínios cognitivos: informação, visando o controlo técnico no âmbito do trabalho; interpretação, assegurando orientação da acção através da linguagem e nas relações partilhadas; e análise, libertando a consciência do poder.

Atrevemo-nos a sugerir que Manuel Albuquerque, sem citar Habermas, (embora o pudesse ter lido), anda perto dele. Para o primeiro, a auto-reflexão sobre o Programa parece ser o único modo de trazer ao nível do consciente as especificidades do mesmo para que se possa sugerir a reconstrução racional do programa, que se pretende reguladora da actividade profissional dos professores de Inglês. Habermas, em "Knowledge and Human Interests" (1968, 1973), fala e distingue entre "auto-reflexão" e "reconstrução". A primeira, permite a criação de um campo auto-afirmativo, pessoal e individual, enquanto a segunda, o "enquadramento" dos actos de reflexão que são necessariamente individuais no âmbito e profundidade. Habermas insiste, igualmente, na "emancipação" através do conhecimento como diálogo (busca da salvação). Sendo assim, a validade implícita em actos de fala comunicativos responsabiliza tanto os falantes como os ouvintes em busca de uma racionalidade-padrão, não menos vinculativa que a empregue na Lógica e na Ciência.

Atrevemo-nos a dizer que a Tese de Manuel Albuquerque pretende o acima referido: a emancipação, a responsabilização dos professores através do diálogo com o Programa, diálogo esse que mais não é que uma busca de uma racionalidade que se pretende vinculativa, porque alicerçada na Lógica e na Ciência Linguística e Educacional. A "reconstrução" do Programa terá forçosamente de passar por toda uma análise a efectuar pelos professores, pois só ela é auto-formativa e poderá levar à reflexão crítica. A emancipação e a autonomia do professor só existirão se a racionalidade estiver sempre presente. Essa racionalidade tem objecto, forçosamente. Albuquerque, no caso do Programa de Inglês, mostrou qual era esse objecto: todo o conhecimento teórico sobre áreas consideradas essenciais à elaboração de um Programa: noção de Programa e tipos existentes de Programas; factores considerados problemáticos e/ou relevantes na aprendizagem de uma Língua Estrangeira. - a idade, ritmo de aprendizagem, estratégias de aprendizagem, estratégias de comunicação, factores cognitivos, socio-culturais e motivacionais.

A literatura referida por Manuel Albuquerque era a mais recente para a época (1984) e é interessante e digno de nota salientar como neste aspecto foi precursor daquilo que hoje consideramos necessário em qualquer investigação no âmbito das Didácticas das Línguas - referência crítica às Estratégias da Aprendizagem e da Comunicação e sua relação com o desenvolvimento linguístico e emancipatório dos alunos e professores. Estes últimos terão de reflectir criticamente sobre as suas Estratégias de Ensino que, provavelmente, são o espelho das suas próprias estratégias de aprendizagem da Língua Inglesa, e da sua menor ou maior "auto-reflexão" sobre o binómio aquisição- -aprendizagem (Acquisition vs Learning-Krashen 1980, 1982). Todos estes aspectos poderão (deverão?) poder explicar as razões da abordagem adoptada de ensino da Língua Estrangeira.

Caberá aos professores reflectir para reconstruir. Caberá ao Ministério da Educação reflectir sobre os vários contextos escolares e os Programas que terão de ser flexíveis e acompanhados de Programas Pedagógicos - modos de implementar o enunciado a nível de objectivos, conteúdos, processos.

Caberá aos autores dos Manuais criar materiais flexíveis que permitam a sua adaptação a contextos escolares diferentes, alunos socio-culturalmente diferenciados, a professores diferentemente preparados.

Caberá às Escolas cuidar da implementação de Programas sequenciados, evitando recomeços consecutivos e maximizando a eficiência prevista pelo Programa.

A obra agora publicada é um desafio para quem é capaz de assumir que nada do Presente foi criado sem Passado e que nada poderá ser Futuro sem Presente e Passado.

Os portugueses são contrários a admitir este pressuposto. Que os responsáveis pelo Ensino do Inglês nas Escolas têm de admitir este pressuposto, não nos restam dúvidas. E, parafraseando Habermas, diremos que "só o poder redentor da reflexão" nos poderá curar do poder do discurso (instituído), mas que as nossas vontades estão escravizadas pela nossa maneira de viver, incorrigível...

SUMÁRIO