VULTOS NOTÁVEIS DO TERMO DE VISEU

 

 

Frei Crisóstomo da Visitação nasceu em Viseu e morreu em Espanha no ano de 1604. Professou na Ordem de S. Bernardo, em Alcobaça, tendo durante anos sido seu representante na Cúria Papal.

Foi no decurso da sua estadia em Roma que se deu o desastre de Alcácer-Quíbir, com o consequente desaparecimento do rei D. Sebastião, e que se começaram a formar no nosso País os diversos partidos pretendentes à sucessão dinástica. Frei Crisóstomo, como aliás aconteceu com os cistercienses de Alcobaça e a generalidade das ordens monásticas sediadas em território luso, aderiu à causa de D. António, Prior do Crato, defendendo-a de forma enérgica e com a maior convicção, face à influência avassaladora e sempre crescente de Filipe II de Espanha - também ele pretendente à coroa portuguesa - na Europa e, especialmente, junto da Santa Sé. Tal determinação valeu-lhe a expulsão de Roma, onde a influência espanhola era enorme, tendo ido viver para Veneza e, mais tarde, para um convento perto de Parma.

O seu alto espírito patriótico, porém, faz com que não emudeça. Enquanto esteve em Veneza publicou algumas obras em latim de comentários místicos e de defesa dos privilégios do convento de Alcobaça e, uma vez que se perdeu a causa de D. António, Prior do Crato, vai unir-se a outras ilustres figuras da História de Portugal, exaltados sebastianistas, que procuravam por todos os meios ao seu alcance que a causa portuguesa não esmorecesse. Assim, não é de admirar que muitos portugueses, fartos da dominação estrangeira, não hesitassem em aceitar como sendo D. Sebastião os vários impostores que, sucessivamente, foram aparecendo dentro e fora do nosso país, desde o rei de Penamacor, passando pelo pasteleiro de Madrigal, até ao calabrês Marco Túlio Catizoni.

Foi o que aconteceu com D. João de Castro, neto do célebre Vice - Rei da India que, vencendo a primeira impressão, "lançou-se a seus pés, reconhecendo-o pelo seu verdadeiro Rey e senhor"; com Frei Estevão de Sampaio que, não muito convencido, se prostou a seus pés; e a Frei Crisóstomo da Visitação que, inicialmente, foi quem mais ajudou o aventureiro calabrês, entretanto preso em Veneza a pedido do embaixador espanhol, enviando-lhe para a prisão, notícias e livros para sua distracção, ao mesmo tempo que, com Frei Estevão, no meio do maior sigilo, procurava obter dinheiro entre os Portugueses emigrados para o ajudar a recuperar o Trono de Portugal.

Neste meio tempo, Marco Túlio foi libertado e partiu, sob o hábito de monge, para França, na companhia de Frei Crisóstomo. Alojaram-se em Florença, num convento da ordem de S. Bernardo, onde o embusteiro voltou a ser preso, agora à ordem do grão-duque da Toscana, Fernando I de Médicis, por solicitação do embaixador de Filipe III em Veneza.

De seguida, Frei Crisóstomo foi, ocultamente, a Roma pedir ao papa cartas para a Senhoria de Veneza, a fim de o preso ser libertado, o que efectivamente aconteceu. Obtida a liberdade implorada, e já desenganado e arrependido por ter sido ludibriado por tão hábil impostor, acompanhou-o até Florença, onde, depois de ser preso novamente, o abandonou à sua sorte.

Algum tempo depois Frei Crisóstomo da Visitação pediu licença para entrar em Espanha, onde veio a acabar os seus dias (1604).

A.S.S.

 

Fontes:

Ameal, João - História de Portugal

Peres, Damião - História de Portugal

Serrão, Veríssimo - História de Portugal

Enciclopédia Luso-Brasileira

SUMÁRIO