MILLENIUM n. 8 - Outubro de 1997

 

VULTOS NOTÁVEIS DO TERMO DE VISEU

ANTÓNIO SOARES DE SOUSA*

 

Natural do lugar de Pinheiro, freguesia de Santos Evos, José d'Oliveira Berardo nasceu no dia 3 de Junho de 1805 e morreu em 26 de Outubro de 1862 na Casa do Cruzeiro, em Viseu, bem perto da alameda que conduz ao antigo Paço Episcopal.

Homem de são critério e imparcialidade, com profunda formação científica e literária, foi cónego da Sé de Viseu, sócio correspondente da Academia Real das Ciências de Lisboa, das Academias Arqueológicas de Roma e de Berlim, do Instituto de Coimbra e primeiro reitor do Liceu Nacional de Viseu. Legou à posteridade uma vasta obra, boa parte da qual deixou condensada em artigos no Liberal, jornal de Viseu de grande prestígio e divulgação na época, cuja publicação se iniciou em Maio de 1857 e terminou em Janeiro de 1859.

Entre outros estudos de grande interesse histórico e científico para a cidade, destacam-se Notícias históricas de Viseu, onde se encontra um mappa geográphíco do Concelho de Viseu, com estatísticas diversas das freguesias e população do Concelho, uma Memória sobre Grão Vasco, onde indica todos os quadros de Viseu atribuídos ao pintor viseense e, em latim, Ecclesiae Visonensis Epítome... Visonío, 1855, sobre a antiguidade de Viseu. Atribui-se-lhe também a autoria de Exame sobre a legitimidade canónica de vários capitulares de Viseu, opúsculo que deu origem a um cisma e grandes perturbações de 1834 a 1844, altura em que o bispo Alexandre Lobo esteve homiziado na Europa, após os acontecimentos políticos que terminaram em Évora-Monte.

Escreveu ainda Revista histórica de Portugal desde a morte do Sr. D. João VI até o falecimento do Imperador D. Pedro, Coimbra, 1840, Segunda edição mais correcta e acrescentada com um suplemento até à restauração da Carta Constitucional, Porto, 1846, Memória sobre alguns reparos que se podem fazer à biografia e aos méritos de Jacinto Freíre de Andrade, Lisboa, 1855.

Contemporâneo do insigne bispo D. Francisco Alexandre Lobo, a sua personalidade forte e a sua crença nos ideais liberais fizeram com que não quisesse ser ordenado sacerdote antes da morte do bispo, só para o não ter por superior, apesar de, nos seus escritos, lhe fazer alusões muito favoráveis.

Também Alexandre Herculano e Raczinki, quando, ao tempo, estiveram em Viseu lhe fizeram referência muito elogiosa. O Conde Raczinki, que de 1843 a 1845 estudou os nossos monumentos artísticos, afirma mesmo no seu Diccionaíre ou Portugal "Berardo, escritor público, de 40 anos de idade aproximadamente, vive na cidade de Viseu e é dotado de grande zelo pela glória litteraria de Portugal. Homem muito instruído e de posição muito independente, entrega-se com ardor ao estudo. Foi ele quem descobriu o assento do baptismo de Vasco Fernandes e tem-se dedicado com a maior felicidade às pesquisas tendentes a esclarecer as trevas que ainda em 1843 envolviam a existência daquele pintor".

Terminamos com a transcrição de um artigo inserto no Almanach de Viseu de 1884, da autoria de Júlio Teixeira:

"José d'Oliveíra Berardo. Eis o nome do homem mais afamado e mais excêntrico que Viseu teve até hoje, durante este seculo...

Foi alferes de milícias durante 9 annos. Preso como afecto ao liberalismo, percorreu por espaço de três annos (l828 a 1831) as cadeias de Mangualde, Viseu, Almeida e Relação do Porto...

Em 1835 era Berardo eleito vereador municipal. Desde 1836 a 1839 exerceu o cargo de administrador do concelho. Em 1844 é nomeado mestre de historia sagrada e ecclesiastica para o seminário diocesano visiense; mas, sendo accusado de lutherano e calvinísta, (?) breve teve de resignar.

Presbytero aos 40 annos, foi elle o primeiro reitor do lyceu visiense, chegando à dignidade de conego (janeiro de 1862) quando se aproximava o momento em que a trajectória da existência tomou o ponto extremo da sua evolução (Outubro de 62).

Avaliado pelo rasto grandioso, tradicional, que a sua passagem deixou e se mantém quasi indelével, jamais a consagração popular, cremos que um pouco inconsciente e sem critica, deu proporções e vulto mais avantajados a ninguém na sua própria terra.

Com a sua agigantada figura de homem membrudo e de formas esculpturaes, o padre Berardo enchia litteraimente as ruas tortuosas e apertadas de Viseu; com as suas grandes botas de coiro grosso e bem ferradas cobria as lages amplas e mal gradadas; com as suas polémicas de uma logica ás vezes capciosa, dura como ferro e de quando em quando soez, elie enchia inteiramente a sua terra.

Segundo a tradição popular, Berardo nada ignorava! Era paleographo, latinista e antiquário; archeologo, jurista, naturalista, philoiogo, medico, engenheiro, mathematico, historiographo, theologo, philosopho e musico!...

Uma verdadeira encyclopedia encadernada em saragoça de Gouveia, ferrenho e fortemente agarrado ao dogmatismo e infalibilidade das suas opiniões; sem ideal no futuro que o fizesse propagandista e o compelisse a preparar as causas de revolução mais ou menos afastada. Comtudo, n'uma epoca mais remota a imaginação popular tel-o-hia desfigurado creando em seu logar um mytho.

Honrado e bom, o padre Berardo foi um colosso que encheu a patria de D. Duarte, mas a sua descommunal grandeza parece que não logrou transpor os muros da velha cidade sem se amesquinhar e reduzir quasi a um ponto sem brilho."

* Professor - Coordenador da ESTV

FONTES:

Aragão, Maximiano - Viseu - Instituições Religiosas

Leal, Pinho - Portugal Antigo

Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

 

SUMÁRIO