MILLENIUM n. 9 - Janeiro de 1998

 

VULTOS NOTÁVEIS DO TERMO DE VISEU

 

ANTÓNIO SOARES DE SOUSA*

 

António Nunes de Carvalho da Costa Monteiro de Mesquita, de seu nome completo, mais conhecido por Doutor Nunes de Carvalho e um dos vultos mais notáveis da cidade de Viseu, onde nasceu a 16 de Junho de 1786, na Rua Direita, foi lente da Universidade de Coimbra, do Conselho de Sua Majestade, Comendador da Ordem de Cristo e Cavaleiro da Ordem de N. S. da Conceição. Filho de José Nunes de Carvalho e de Maria Angélica da Costa, foi por estes destinado à vida eclesiástica, tendo consagrado os primeiros anos da sua mocidade ao estudo das humanidades, que então floresciam na casa que os Oratorianos possuiam no actual Seminário Diocesano.

O seu esforço, o seu talento e a sua dedicação ao estudo dos clássicos gregos e latinos fizeram com que aos 18 anos fosse nomeado professor substituto da cadeira de latim nesta cidade.

Em 1806 foi convidado por D. Frei Manuel Cenáculo de Villas Boas, arcebispo de Évora, para, na escola que ali havia criado, ir reger a cadeira de Humanidades, funções que desempenhou com raro brilho e elevada competência. Em finais de 1808, com a invasão francesa, Nunes de Carvalho teve que interromper o seu magistério na cidade de Évora, voltando a sua atenção, perante os acontecimentos trágicos que então ocorreram no Alentejo, particularmente na sua capital, para as suas desprotegidas populações e, sobretudo, para o arcebispo, a quem dedicou a maior atenção e estimava sobremaneira.

Em 28 de Janeiro de 1813 foi nomeado substituto interino da cadeira de Filosofia Racional e Moral no Real Colégio das Artes, em Coimbra. Em 1817, por carta régia de 17 de Outubro, foi provido definitivamente na substituição e em 1822 foi nomeado professor titular da cadeira em referência, substituindo assim D. Frei Francisco de S. Luís, Reitor da Universidade e Bispo de Coimbra.

Em Outubro de 1815, sem abandonar o ensino, matriculou-se no 1 ano jurídico, frequentando os cursos de Cânones, que concluiu em 1820, e o de Leis, que concluiu no ano seguinte. Em 22 de Abril de 1822 recebeu o grau de doutor em Jurisprudência.

De formação liberal, e apesar da instabilidade política então vivida, o Doutor Nunes de Carvalho manteve-se no seu posto até 1828, altura em que, com o triunfo do Miguelismo, teve que se homiziar na Galiza, de onde depois partiu para Inglaterra e, mais tarde, para a França.

No exílio dedicou-se a trabalhos de investigação nas bibliotecas de Londres e de Paris, tendo nessa altura publicado (Paris - 1833) o manuscrito inédito de D. João de Castro Roteiro em que se contém a viagem que fizeram os Portugueses no ano de 1541 de Goa até Suez, precedido de um erudito prefácio e muitas notas e acompanhado de um atlas de 17 cartas, além de retratos de D. João de Castro e de D. Estevão da Gama.

No prefácio atrás citado, Nunes de Carvalho manifestou também a intenção de publicar os outros dois roteiros de D. João de Castro, bem como outras obras deste grande vulto da Expansão Portuguesa no Oriente, como sejam algumas cartas que foram publicadas, mais tarde, num Jornal de Coimbra.

Após a Convenção de Évora-Monte, este vulto insigne das letras portuguesas, que se ufanava de se dizer natural de Viseu, regressou a Portugal e a Coimbra, onde foi nomeado lente da Faculdade de Leis e deputado da Real Junta da Directoria Geral dos Estudos.

Com a extinção das ordens religiosas, as obras e outros documentos que recheavam muitas das livrarias dos seus conventos ficaram em poder do governo, tendo este distinto e douto viseense recebido a incumbência de reunir toda aquela documentação no edifício da Biblioteca Pública, o que demonstra a alta consideração bibliográfica que tinha granjeado entre a intelectualidade nacional e internacional da época, como o atesta Ferdinand Deniz na Nouvelle biographie universelle, Paris, 1854, tomo 8: M. Carvalho (António Nunes) a visité la France et l'Angleterre, et ses investigations lui ont acquis des rares connaissances en bibliographie.

Em 1835 foi nomeado bibliotecário-mor da Casa Real e em 1836, por decreto de 28 de Setembro, Passos Manuel nomeia-o interinamente para guarda-mor do Real Arquivo da Torre do Tombo, em virtude da demissão do bispo-conde de Coimbra, D. Frei Francisco de S. Luís, que não quis jurar a Constituição de 1822. Era mesmo intenção do Governo nomeá-lo definitivamente, mas não aceitou, dada a amizade que o ligava ao prelado e a esperança que este viesse a jurar a nova constituição a ser votada pelas Cortes - a Carta Constitucional - o que não veio a acontecer, razão pela qual, em 30 de Setembro de 1838, acabou por tomar posse efectiva do cargo que, interinamente, já ocupava.

Anos passados mudou-se definitivamente para Coimbra, dedicando-se exclusivamente ao ensino na velha Universidade, regendo, com brilhantismo, a cadeira de Direito Romano até 1861, ano em que requereu a sua jubilação, concedida por decreto de 25 de Abril daquele ano.

Posteriormente, por escritura pública, outorgada na Lusa Atenas, aos 28 dias de Setembro de 1864, doou a sua vasta e precisa biblioteca à terra natal, querendo, com este acto, mostrar o acrisolado amor que nutria por Viseu e dar início, como era seu desejo, à constituição da melhor Biblioteca Pública do Reino.

Faleceu, em Coimbra, em 5 de Junho de 1867, sendo sepultado no cemitério público daquela cidade, em mausoleu mandado erigir por José Maria Lilas, seu amigo e fiel servidor.

 

FONTES:

Aragão, Maximiano - Album Viseense

Leal, Pinho - Portugal Antigo

Enciclopédia Portuguesa e Brasileira

* Professor-Coordenador da ESTV

SUMÁRIO